sábado, 21 de abril de 2018

Esquentamento – Armindo

Só o homem livre apanha um esquentamento. É nestes momentos, entre o ridículo e o sublime, que se sente a vertigem da ausência do caminho debaixo dos pés. Nestes ápices de desvario, alguns, com mais perspicácia, pressentem que algo está para acontecer e, pelo sim, pelo não, achegam-se. Pelo sim, poderão ao menos dizer, eu também lá estive e, quem sabe, dos grandes festins até as sobras são divinais. Procuram assim um lugar à mesa levando a mão às costas de uma cadeira enquanto vão dizendo, eu também já tive dessas chatices. Ah, quão distante anda a aproximação da sorte grande. São como melgas que zumbem, zumbem, em volta de um tormentoso rio de sangue que traça linhas sinuosos, ricas de homomorfismos com as constelações celestes, e apenas sentem o cheiro a hemoglobina, numa cegueira na qual não distinguem um poema que abrasa por dentro de um post no facebook, por muito infestado de likes que ele esteja. Pelo não, dirão, só lá fui para gozar o prato, onde já se viu uma coisa destas. Pois é, se no tempo que agora escrevo esteve Armindo incumbido de lançar a invetiva ao pai Mouco, estava muito longe de suspeitar do poema que anos mais tarde o Humberto lhe soletrou junto ao ouvido, enquanto o Armindo o enlaçava com os seus braços bochechudos, facetados no ginásio, de pele oleada, bronzeada e lisa, depois de se lhe ter queixado de um ardor. Não sendo um homem de letras, foram os sons que o tomaram por dentro, os erres, os eis, sopros ditos em sequência, saídos daquele ser aninhado, que, como um fole, se manifesta e esvai em perpétuo movimento. É isso a poesia. Do poema dito já sabeis o início, só o homem livre apanha um esquentamento, e o resto tereis que o tomar em linha contínua, quer porque a disciplina desta página não me o permite, quer porque foi dito sem quebras, sem princípio nem fim, feito de uma dança entre o temor e o tremor, o ardente e o ardor. Mas temo que tenhamos de deixar o esmiuçar do poema, das suas relações fonéticas e semânticas, para uma nova parte desta obra, que aqui já anúncio será apenas feita da ebulição das partes, sem a procura de um todo, pois neste preciso momento soa o primeiro toque no sino da igreja. Uma. O Mouco tem pela manhã a preguiça do álcool, levanta-se tarde e bamboleia-se pela casa, incomodado, com pernas muito abertas. Duas. O Armindo prepara-se para o que tem para dizer, para além da força da razão apercebe-se que a natureza trabalhou o seu corpo numa ordem inversa ao que a bebida fez ao do pai. Três. Coloca-se à frente do Mouco atemorizador, o da meia lua na orelha, o que já foi comido pelos porcos, o que já não tem nada a temer. Quatro. Incrédulo, o Mouco retrocede um pouco, juntado os olhos à abertura das pernas. Cinco. Nunca mais te aproximas da mãe, ouviste, diz-lhe o Armindo, surpreendido com a grandeza da própria candura. Seis. Quem pensas que és para me ameaçares, grita-lhe o Mouco, procurando reaver a autoridade. Sete. Oito. Foste tu que bateste no Pinote na prisão. Nove. Foge, andam à tua procura pela morte do capitão Simões. Dez. Já nem o Hilário te vale. Onze.

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