Num futuro não muito longínquo vamos encontrar na rua gente fazendo delicados movimentos com as mãos e, ao princípio, ir-nos-emos surpreender com essa intimidade de trazer por casa assim exposta com a desvergonha de uma distração. Dizem-me que traçarão pequenas órbitas, cheias de carinho, interrompidas para iniciar uma nova ondulação porque o amor não tem fim. Depois, depois também nós nos habituaremos a estar emparelhados aos nossos seres queridos onde quer que estejamos e o trazer alguém no coração passará para as pontas dos dedos, o ténue bafo junto à orelha, a leve palpitação de um olhar, o sinal enviado pelo impercetível interromper de um movimento, ultrapassarão a barreira da distância e o mundo será como um gigantesco ventre egoísta que se coibirá nos expulsar insistindo em aumentar de volume para mais albergar. Ligados, sempre ligados. Estarás sempre comigo mãe, virá um dia a dizer Armindo quando a desmazelada mulher estiver no seu leito com ele de joelhos junto à cama, os cotovelos afundados no colchão, mãos apertadas no topo de um vê invertido, e nessa altura só não verá quem não quer ver, ainda que cada um esteja focado nas suas carícias à distância, e ela cadavérica, não pela hora mas porque sempre o foi, uma mulher precisa de alimento, assim, dado com as mãos, senão não medra, sim, ainda não o disse, o mundo do futuro vai ser feminino, nos antípodas do do Mouco, que nunca teve ouvidos para os seus lamentos, e ela com os ossos como estandarte de carnes fracas, baloiçantes, movendo-se pela casa estonteada como um animal sempre enjaulado a quem foi dado um único vislumbre de uma janela, na distância percorrida entre a casa dos pais e a casa do Mouco, a casa agora dela, e o Armindo de joelhos junto à cama, ele a quem ela aprendeu a temer como ao marido, de um útero tudo pode sair, e saiu um homem, forte e bruto como o Mouco, se amamentar não fosse uma cegueira teria morrido à fome, mas a mama, mesmo pequena, doí, porque quer verter, esguichar, por vezes seria melhor não sermos feitos de carne e osso, de silício antes, seria possível desligar, avariou, chamem a assistência, estamos fechados, voltem mais tarde, noutro dia talvez, se calhar já cá não estou, fugiu com o amante, deixou o filho e o marido desconetados, mas existem impossíveis em que nem sonhar é possível, sempre ligada aos pequenos gestos do Mouco, a sensibilidade exacerbada ao arrastar do pé de uma cadeira, um tremor de terra que lhe abana as carnes, não os ossos, que esses fizeram-se antissísmicos, há quem diga que os ossos não doem, é tudo uma questão de carne, nódoas negras, e foi na carne da sua carne que encontrou a salvação, ouviu-a como ouvia tudo, de olhos descaídos, oferecendo uma face porque ouve mal da outra, como um herbívoro escuta o aproximar de um carnívoro, está-lhes no sangue procurar entender o que eles têm para dizer, até ficarem sem pinga dele, mas naquele dia Armindo fê-la dar a outra fase, olhar alguém de frente pela primeira vez na vida, disse-lhe ele, eu não sou um homem, como o meu pai.
In 25 de abril sempre (2018)
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