domingo, 25 de março de 2018

Uma Aventura – Joaninha, Zé, Zalo e Armindo

Era uma vez, começam as histórias, e antes as aventuras começassem da mesma forma. Sentados no chão, prontos a disfrutar delas, sem imprevistos nem exaltações, só para o alimento da mente, o conhecimento do mundo feito de ouvir contar, como se conhece em detalhe um vírus sem o haver contraído, para depois em sonhos nos sentirmos infetados, imaginá-lo a entranhar-se no corpo por uma pequena fissura descurada, até porque esse não é um momento de vigília, e o visualizemos a percorrer as veias, a tocar-nos no mais íntimo, que o sono é uma verossímil desculpa para baixar a guarda. São assim as histórias, tomam-nos o corpo repousado, são o futuro, a omnisciência sem um risco. Não, não, as aventuras não são como as histórias, que o diga o Armindo, que terá de fazer frente ao Mouco, que o diga o Zé, que deve ganhar a confiança da Olímpia, que o diga o Zalo, que tem de contar uma história ao Hilário, que o diga a Joaninha, que precisa de pregar uma partida ao Mouro. De acordo com o planeado, tudo deve acontecer entre as badaladas das onze da manhã e as do meio dia. Só o Zé tem relógio e mesmo que todos tivessem nada substitui a ordem intemporal que vem da torre, diz-se mesmo que houve uma altura em que o lugar andou quinze minutos atrasado em relação à vila vizinha e ninguém deu por nada, para além de uma estranha alteração, narrada pelos viajantes, na duração da viagem entre os dois lugares, que tornaram mais rápida a vinda e prolongavam o regresso. Mas isso já foi há muito tempo, ainda se ia de burro, quem tinha, e todos sabem que esse animal é muito dado a distrações, ora se alongando por frivolidades, ora se lançando no seu passo rápido e curto, um pouco ao estilo de Fred Astaire, a quem a imaginação de um outro zurrar de tal forma se lhe mete na cabeça que não descansa até chegar ao estábulo, onde uma pouca de palha lhe traz de novo o olvido, porque o burro é um animal de obsessões tão fortes quão curta é a sua duração. Assim, ao equídeo foi imputado o crime para poder o relógio continuar a sua soberania. Também no plano concebido pela Joaninha, nada pode substituir este relógio universal, pois também eles, Mouco, Mouro, Olímpia e Hilário, não poderão escapulir-se aos sessenta tiques que lá do cimo da torre marcarão o passar da aventura. Nesse intervalo de tempo, cada minuto deve ocorrer como que marcado por uma batuta precisa e sem desacertos. Ninguém deve falar com ninguém para que tudo possa ocorrer como combinado. Uma sinfonia em que cada instrumento toca sozinho e apenas ao público é dado o prazer da clarividência. E a coisa não é isenta de riscos. Há telefone em casa da Olímpia, e a terra é pequena, percorrem-se as suas ruas, vielas e becos, em menos de meia hora, incluindo as necessárias voltas e reviravoltas, que no desenho da urbe houve mais de partilhas e conveniências que de régua e esquadro. Sendo a Joaninha discípula destes últimos preferiu o relógio ao emaranhado de contingências, e, se tudo correr como planeado, ficará esclarecido que o Pinote não pode ter morto o capitão Simões.

sábado, 3 de março de 2018

Mãe - Armindo

Num futuro não muito longínquo vamos encontrar na rua gente fazendo delicados movimentos com as mãos e, ao princípio, ir-nos-emos surpreender com essa intimidade de trazer por casa assim exposta com a desvergonha de uma distração. Dizem-me que traçarão pequenas órbitas, cheias de carinho, interrompidas para iniciar uma nova ondulação porque o amor não tem fim. Depois, depois também nós nos habituaremos a estar emparelhados aos nossos seres queridos onde quer que estejamos e o trazer alguém no coração passará para as pontas dos dedos, o ténue bafo junto à orelha, a leve palpitação de um olhar, o sinal enviado pelo impercetível interromper de um movimento, ultrapassarão a barreira da distância e o mundo será como um gigantesco ventre egoísta que se coibirá nos expulsar insistindo em aumentar de volume para mais albergar. Ligados, sempre ligados. Estarás sempre comigo mãe, virá um dia a dizer Armindo quando a desmazelada mulher estiver no seu leito com ele de joelhos junto à cama, os cotovelos afundados no colchão, mãos apertadas no topo de um vê invertido, e nessa altura só não verá quem não quer ver, ainda que cada um esteja focado nas suas carícias à distância, e ela cadavérica, não pela hora mas porque sempre o foi, uma mulher precisa de alimento, assim, dado com as mãos, senão não medra, sim, ainda não o disse, o mundo do futuro vai ser feminino, nos antípodas do do Mouco, que nunca teve ouvidos para os seus lamentos, e ela com os ossos como estandarte de carnes fracas, baloiçantes, movendo-se pela casa estonteada como um animal sempre enjaulado a quem foi dado um único vislumbre de uma janela, na distância percorrida entre a casa dos pais e a casa do Mouco, a casa agora dela, e o Armindo de joelhos junto à cama, ele a quem ela aprendeu a temer como ao marido, de um útero tudo pode sair, e saiu um homem, forte e bruto como o Mouco, se amamentar não fosse uma cegueira teria morrido à fome, mas a mama, mesmo pequena, doí, porque quer verter, esguichar, por vezes seria melhor não sermos feitos de carne e osso, de silício antes, seria possível desligar, avariou, chamem a assistência, estamos fechados, voltem mais tarde, noutro dia talvez, se calhar já cá não estou, fugiu com o amante, deixou o filho e o marido desconetados, mas existem impossíveis em que nem sonhar é possível, sempre ligada aos pequenos gestos do Mouco, a sensibilidade exacerbada ao arrastar do pé de uma cadeira, um tremor de terra que lhe abana as carnes, não os ossos, que esses fizeram-se antissísmicos, há quem diga que os ossos não doem, é tudo uma questão de carne, nódoas negras, e foi na carne da sua carne que encontrou a salvação, ouviu-a como ouvia tudo, de olhos descaídos, oferecendo uma face porque ouve mal da outra, como um herbívoro escuta o aproximar de um carnívoro, está-lhes no sangue procurar entender o que eles têm para dizer, até ficarem sem pinga dele, mas naquele dia Armindo fê-la dar a outra fase, olhar alguém de frente pela primeira vez na vida, disse-lhe ele, eu não sou um homem, como o meu pai.