sábado, 3 de fevereiro de 2018

Das vantagens de se pertencer a um Clube - Joaninha, Zé e Armindo

Mais uma vez, devo começar com um reparo sobre o título. A palavra se. Pois desconfio que a lestes como pronome pessoal, como pertencer-se a um clube, como se descreve nas brochuras de angariação de sócios, escritas com o único intuito de aumentar as hostes, essencialmente os incautos, e quantos ingénuos pertencem a clubes apenas para lhes dar corpo, sem nunca chegarem efetivamente ao caroço, ao âmago, mas se a lerdes como conjunção, e se com propriedade pertencerdes a um algum clube decerto a tereis lido dessa forma, pois é para mim certo e sabido que, assim sendo, não andareis neste mundo com os olhos fechados, nesse caso, bom nesse caso, peço-vos para vos irdes embora deste texto, e faço-o por duas boas razões, a primeira é que já sabeis o que aqui se irá escrever e por isso podeis gastar melhor o vosso tempo a fazer outra coisa qualquer, sei lá, ide jogar xadrez, entretende-vos com peões, cavalos, bispos, torres, rainhas e reis, estes últimos de incalculável valor, ainda que só consigam dar um passinho de cada vez, como uma delicada gueixa, a segunda, porque me entedio de escrever para vós, agoniam-me as táticas e as estratégias, tudo muito posicional, muito estático, cheio de disposições, e acordei hoje com vontade de escrever sobre árvores, regatos, casebres e pedras de granito que nos rendilham as nádegas quando nelas nos sentamos, comunicando-nos pela parte menos nobre o estado da mãe terra, debitando-nos pacientemente para o corpo calor ou frio, conforme a estação do ano, e, neste mecanismo de desapego eletrostático, nada melhor do que ir olhando para as árvores dispostas em xadrez, intrometendo-se no acesso ao casebre, tornando penoso o progresso em sua direção, e porventura, quase sem querer, reparamos que escasseiam por alturas deste, quando se impõe a encosta do monte onde ele se empoleirou solitário, talvez porque o criador é do tipo aventureiro e descurou a retaguarda, tenha sido por entusiasmo que lançou a bolota para a frente, na sofreguidão que carateriza a procriação, ou tenha sido por falta de amor, e nada melhor que a guerra para justificar a ausência do leito, porque entre um casebre em ruínas e uma gueixa vai uma indisfarçável diferença de carga, ainda que ambos tenham já visto tudo, mas, qualquer que tenha sido a tática ou a estratégia, e não me vou perder agora no esmiuçar das diferenças, o que é certo é que a calvície prematura na cabeça com coroa derreada pode ser um estratagema, engendrado com algum sacrifício, uma entrega, como uma oferenda aos deuses destinada a obter o favor das próximas jogada, senão quando, vemos dirigir-se para o casebre, cada um à sua vez, primeiro o Zé, como um cavalo ligeiro e um pouco nervoso, fazendo repetitivos acenos com a cabeça, como quem vai a pensar, não a saudar, dando duas voltas ao casebre perscrutando ao horizonte, com ele ainda cá fora sobe encosta acima o Armindo num movimento lento e retilíneo, caminha como que hipnotizado, talvez emparedado pela carga e, finalmente, chega a Joaninha, ziguezagueando, destra, em direção a eles, como uma rainha. Qual será a senha?

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