domingo, 11 de fevereiro de 2018

Das vantagens da fotografia - Clube

É clara a vantagem da fotografia sobre a pintura, ainda que esta última seja mais prestigiada, protagonizada por artistas de pincel baloiçando da mão, enquanto os olhos se fixam ora para fora ora para dentro, conforme professem um estilo mais realista ou mais abstrato, sendo a diferença de escola caraterizada pelo tempo que permanecem em cada um dos estádios, em que o de menor duração pouco contribui para a obra, foi desenhado a pensar no artista, com o objetivo que faça um rápido teste de realidade. É assim, todos as ordens vêm munidas destas válvulas de segurança, tanto mais meticulosas quando mais elaborada se tornou a técnica, mais enredada em si própria, sim, particularmente a realista, capaz de conceber corpos monstruosos que nenhum ser humano digno desse nome alguma vez imaginou e cujo vislumbre arranca risos do demo, até porque nenhum rei vai nu. Por isso vos asseguro, a fotografia é imensamente superior à pintura. Primeiro, não necessita de pincel. Segundo, não obriga ao vai e vem do olhar. Terceiro, é precisa na captura da realidade. Debruça-se um homem sobre a máquina, carrega num botão, e já está. Não vou, portanto, pintar a primeira reunião do clube, prefiro tirar-lhe a fotografia. Fico estático por uns momentos, para não sair tremida, olhos bem abertos, pois a luz não impera dentro do casebre, e contraio a íris não uma, mas duas vezes, para poder depois escolher a que ficou melhor. E, tendo sido tiradas tão de seguida, as únicas diferenças deverão ser puramente técnicas, influenciadas por um pequeno oscilar da mão, o súbito movimento de uma nuvem lá fora, ou um relampejar de neurónios que provoque uma ténue mudança de semblante. Coisas pequenas, é certo, mas que numa fotografia fazem toda a diferença. Pois tal como o fotografo se debruça sobre a máquina, também depois o olhar de cada um dos fotografados se verte sobre a fotografia para se certificar da sua fidelidade à realidade exposta. Vamos então a uma delas, não sei se a primeira ou a segunda, pois a memória entregou-me as sem a indicação da ordem, nela, dos principais figurados, nada surpreende, a Joaninha foi apanhada a falar, curvada para a frente sobre as pernas cruzadas no chão, à sua esquerda, encostado a um barrote, o Zé fixa o Armindo que continua com o tronco hirto, ignorando a exiguidade do espaço, e é neste ponto focal que sou assaltado por um sobressalto, por detrás do Armindo está a figura do Mouco, difusa é certo, mas a meia lua no topo da orelha é indisfarçável, dá-lhe um ar ameaçador, o que nesta reunião com indícios de conjura incute um peso que perpassa todos os restantes figurados. Não caibo em mim com o que vejo. Como não foi isto o que testemunhei no momento em que me debrucei sobre a câmara? Também nisto é a fotografia superior à pintura, prefere a realidade ao criador. É com mãos débeis que puxo da outra, não sei o que procuro, mas a busca da tranquilidade está pespegada de movimentos inúteis. Nesta, tal como na anterior, continua presente o Mouco ameaçador, e é quando afasto os olhos com desalento da sua figura carcomida que vejo, entre a Joaninha e o Zé, o Zalo Aires.

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