domingo, 25 de fevereiro de 2018

Da turbulência - Joaninha

Vamos agora ao assombro da coexistência pacífica entre o maciço Armindo e o volátil Zalo. Dois seres tão opostos que quando se encontram quase sempre há turbulência. Dela gozam as cegonhas, que de asas desfraldadas ascendem nas correntes de ar que a rocha quente da montanha atira para cima. Por isso, se vos revoltastes com o tratamento de que o Zalo era alvo por parte da trupe do Armindo, digo-vos que o fizestes mais com base na emoção do que na razão. Sereis também vós voláteis? Sim, volúveis, instáveis, inconstantes, inseguros, até mesmo um pouco voantes, volantes e voadores. Sim, o contrário de estáveis e constantes. Ou deverei dizer, não. Não sois firmes, fixos, assentes e seguros. Ah, sentis já o estremecimento que cada uma destas palavras provoca nas vossas entranhas, tirando-vos do sério, atirando-vos para cima. Deixai-me dizer-vos então que vos deixais levar facilmente pelos calores. Porque não sois como as cegonhas que usufruem da matemática da vida, da diferença entre o seu peso e a velocidade do ar que sobe? Vede como se mantêm sérias e impassíveis, como quem vai numa montanha russa apenas a efetuar cálculos, sem um grito nem um esgar. De olhar impassível, quantas operações farão por segundo? Que máquina tão perfeita é uma cegonha e inventámos nós o parapente para nos emocionarmos, eh, tão lindo visto daqui. Sim, também eu tive veleidades de cegonha, tirei as fotografias com duas impercetíveis contrações da íris, mas logo fiquei de olhos esbugalhados, como um aprendiz a quem o mestre nada diz, tempo, necessita de mais tempo, pensa. Mas isso sou eu, pois a Joaninha já tinha as contas feitas. Está lá na fotografia e não vi. Fala com os braços estendidos marcando cada palavra enquanto vai avaliando com os olhos ora no Zalo ora no Armindo, sem se emocionar, que para isso já lhe bastou o pai. É verdade que o Zé fixa o Armindo, como se mantém tesa a rédea de um animal recém-domado, mas acreditar que a psicologia bastaria, que não seria necessária a matemática, é como acreditar que o ar nunca mais pararia de subir e que a rocha continuaria a aquecer, ah é tão lindo isto visto de aqui, ah é tão lindo isto visto de aqui, ah, ah, ah. Não, existe um intervalo no qual o ar sobe e volta a descer, dá um pouco de corda ao Armindo parece dizer a Joaninha, deixa-o estar sem sentir o aperto no pescoço, é verdade que o conquistaste, mas o triunfo é uma cegueira pois é feita de apenas um estado, instável e suscetível, aquele que agora docilmente te lambe as mãos em breve sentirá a propensão de um impulso. O mesmo se aplica a Zalo, o fim do pavor a Armindo seria como deixar de voar e tudo o que planou tem pavor ao aborrecimento terreno. Que Zalo mantenha o receio de Armindo, que Armindo não deixe de ser Armindo, decretou Joaninha. Baixo os olhos como numa celebração e espanto-me porque entre mãos tenho uma terceira fotografia, eu que me recordo de ter apenas duas vezes contraído a íris. Esta é em tudo semelhante à segunda, com o Zalo e o Armindo, mas sem a aura do Mouco nem o peso da anterior, sente-se antes o equilíbrio de uma equação.

Sem comentários:

Enviar um comentário