sábado, 24 de fevereiro de 2018

Da conquista de um colosso - Zé

Do choque provocado pelas duas contrações da íris, procuro restabelecer-me com a ajuda da matemática e da psicologia. A juntar à inconcebível conquista do Armindo assombra-me também a sua coexistência física neste circunscrito local com o Zalo Aires. Para explicar a primeira recorro à psicologia, para a segunda necessito de lhe adicionar a matemática. E esta ciência dos interiores não parece que se aplique ao Armindo, que está cheio de peripécias inteligíveis, sem nuances, que são como são, de uma tal objetividade que ainda que muitas vezes recontadas não se lhes consegue encontrar um desvio digno de nota. O corpo matulão é assim um excelente objeto de análise objetiva, focada na ação, sem necessidade daquelas apreciações que vasculham seres encolhidos com queda para uma poesia húmida que se declama baixinho em esconsos de personalidade apagada, uma água com anseios de húmus, com a matéria orgânica que se vai encontrando no suor de um corpo redondo, onde a distância que os líquidos têm de percorrer para desaguar nos poros é suficiente para os inebriar de odores, ditos pessoais e munidos de rabiscos com tiques de estilo. Não se podem, portanto, aqui aplicar essas visões intimistas e negadoras da existência das grandes classes categorizadoras da matéria humana com argumento que cada caso é um caso. Pois se o Armindo tem estilo, ele pertence ao grupo dos dois ou três grandes traços que estão deste sempre associados à espécie humana, e que pode ser facilmente caraterizado pela distância que o separa da resolução de um problema, que se noutro pode levar à desmesurada reflexão filosófica, nele é dada pelo espaço que necessita de percorrer para entrar em contacto com a origem da contrariedade. Duas exceções ocorreram, no entanto, em que esse intervalo não foi galgado, e de ambas fostes testemunha, Armindo quedou-se imobilizado, enrubesceu, começou a emitir calor e, quiçá traído pelo corpo, internamente foi vítima da segregação de líquidos com tiques pessoais e não de espécie. Nunca digais que desta água não bebereis, estávamos aprontados a seguir pela análise clara, norteados pela ação, e eis que agora nos vemos na iminência de cair no abismo do intimismo, essa caverna onde as qualidades caseiras se cozinham com os piores ingredientes, resultando num guisado espapaçado que tolhe o apetite e se engole por misericórdia. Mas as coisas são como são, e existem de facto tendências inatas. Não sei se foi pelo cheiro, ou de uma outra forma puramente intuitiva, que o Zé sentiu o calcanhar de Aquiles daquela catapulta pesada, que por entre as cordas e o braço lançador, tudo trambolhos pouco refinados, existia um animal que se deixava conduzir com doçura. Ainda assim foi necessária coragem. Todos estendem a mão quando sabem que o cão é manso, mas o Zé conquistou o colosso quando sobre ele tudo era epopeia. Duas conquistas numa só, pois o triunfo desperta a inveja e o amor, e, ainda que ambos venham mascarados das mesmas manifestações de admiração, mais tarde ou mais cedo revelam-se, e no caso do Zé foi mais tarde.

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