domingo, 7 de janeiro de 2018

Mouro – Joaninha

O Mouro é castanho e tem uma forma engraçada de falar. O som abafado de palavras que sem sucesso se debatem para terminar, como se uma força se agarrasse aos dentes impedindo-os de se afastarem em demasia, trazendo-os de volta à palavra seguinte, produz um falar em surdina inacabada. É assim que Joaninha se recorda dele. Aos serões, sentada ao colo da mãe, no banco de pedra do lado de fora da casa, ouvia aquela que considerava por excelência a conversa dos crescidos. Percebia pouco. Percebia que se falava do pai, ainda que nunca o seu nome fosse pronunciado, e, juntando tudo, concebia que de um grande mistério se tratava. Porquê? A importância do assunto. O resguardo que lhe era devido. E, sobretudo, o linguajar do Mouro que vertia uma espécie de código que, acreditava, apenas os iniciados terem a chave. E isto dito com propriedade, pois eram frases cheias de inícios de palavras, sem vírgulas nem travessões, que ele pausadamente colocava umas atrás das outras. A mãe percebia, e ia assentando com um acenar de cabeça ou um olhar que com o tempo se tornou mais vago, fosse porque as saudades se metafisicam com o prolongar da distância, fosse porque a conversa repetida é desfocada como o eco, fosse porque se foi enfastiando dos ditos e dos não ditos do Mouro, não sei. Fosse o que fosse, Mouro não parecia dar por nada, talvez devido ao seu apego às coisas terrenas, manifestado naquela mania de falar com os animais, ou porque o que falava era determinado pela urgência do momento, ou porque a lentidão que imprimia ao que dizia permitia o esquecimento. Mas para Joaninha isso não era problema, não lhe percebendo o conteúdo podia encantar-se com a solenidade da forma, e aí as repetições são soberanas, vão ansiedade da antecipação à emoção da confirmação. Por isso, foi aprendendo a lengalenga de cor, apreendendo o Mouro de forma puramente sintática, como o diabo rouba a alma a um homem. Quando anos mais tarde resolveu perceber o que estava por detrás da celebração, o que o Mouro efetivamente prenunciava, partiu em vantagem. Já sabia que o Mouro era um caramelo, que debaixo do seu ar escorreito e falador estava um corpo amalgamado e suscetível ao calor. E não era difícil encontrar o Mouro, o apetite pela conversa trazia-lhe o gosto da rua. Quando se cruzavam trocavam a saudação, boa tarde Sr. Mouro, bo tard Joan cumprim tu mã, dizia encostado a uma parede caiada. Mas naquele dia, Joaninha ia decidida a entabular conversa, e tirando partido da visível moleza em que o Mouro se encontrava, aquela que é dada pelo sol matinal de novembro depois uns dias de frio e chuva, disse-lhe, sabe, tenho saudades de quando nos visitava à soleira da porta, j lá va tem, respondeu o Mouro entre o surpreendido e o deliciado, num movimento lento de lagarto, te notí de te pa, não resistiu a perguntar, sim, tivemos carta esta semana, ele pergunta por vossemecê, o corpo de Mouro, seja pelo calor do sol, seja pelo inesperado da notícia, arqueia enquanto pergunta, q di ele?

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