sábado, 13 de janeiro de 2018

Da arte de bem atirar – Armindo

Nada pode selar melhor um início de amizade do que um ato de generosidade seguido de um outro de compreensão. Comigo foi o mesmo, disse-lhe o Zé. Armindo sentiu derreter o corpo enorme, um calor subiu-lhe pelas pernas acima, apropriando-se da cabeça, deixando-o num estado turvo para o qual não teve nenhum tipo de preparação. Era a segunda vez que se deixava baralhar por insignificâncias, e tudo na mesma semana. Por razões diferentes é verdade, mas em comum, em ambas, sentiu vontade de abraçar quem tinha pela frente. Conteve-se. Não era rapaz para mariquices. Tinha uma reputação a manter perante a trupe que o olhava com uma atenção mediada pela interrogação. São estas situações que podem catapultar um chefe para a aura que será eternamente recordada, lembraste quando o Armindo se virou para ele e, ou, então, lançam as sementes da desordem, quando se começa a remoer das capacidades do chefe, sentindo-se a estripe de traição que resulta da desilusão, antecâmara do colapso, em que cada qual ao descrer do chefe se acha especial. Homem mesmo seria desdenhar da escopeta, fazer dos seis falhanços prova provada da sua inutilidade, dar um piparote no Zé e pô-lo a correr dali para fora à fisgada, mostrando a superioridade das artes tradicionais sobre as modernices do tiro de flober. Mas Armindo não estava para aí virado, e, tendo deixado passar o momento, deu a vez ao Zé que se ofereceu para o industriar na arte de bem atirar. Foi uma voz débil que assentiu perante uma audiência de boquiabertos rapazes de fisga descaída, com o elástico a baloiçar a descontento. Elásticos empoeirados todos, alguns já a necessitar de substituição pelas mordidelas sofridas de pedras mais pontiagudas que aproveitam o puxar do elástico, o refinar da espessura, para deixarem a sua marca. Se o descalabro de um exército perante o olhar dos seus generais é horrível o desconsolo dos soldados perante a renuncia daqueles que os comandam é um momento de uma beleza lírica capaz de encher salas. Filas de rapazes de calções, rotos, remendados, de olhos encadeados pela luz de palco enquanto o Zé ajuda o Armindo a encaixar a coronha no ombro, lhe diz para não fazer muita força, apenas a suficiente para lhe tirar o peso dos braços, para vencer a tendência para descair, passar-lhe o carrego do chão para o ombro, que coloque os pés em paralelo, um atrás e o outro à frente, torcendo o torço, numa leve reminiscência das gravuras dos antigos egípcios, posição de uma inegável presença cénica, que encoste levemente a face à madeira, sentindo-lhe o cheiro à medida que vai procurando a mira com o olho e o dedo tateia em direção ao gatilho, mirando o alvo através da argola com o piquinho no meio, alinhando este como outro lá na ponta do cano, e agora fazer pequenos movimentos com os braços, bailando o cano em volta da lata, como quem faz a assinatura antes de fazer a obra, e por fim, diz-lhe o Zé, que sustenha a respiração para que o movimento do dedo sobre o gatilho aconteça no mais completo vácuo, e o Armindo faz a lata soltar um lamento que desencadeia o coro dos rapazes tristes.

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