segunda-feira, 22 de janeiro de 2018

Retrato psicológico de um - Caramelo

Sei que o título tem tiques humoristas. Eminentemente visuais, dados pelo travessão que procura atirar o Caramelo para fora da frase, pudesse eu, pontualmente, adotar a forma tategaki. Sei também que já antes vos foi dado um retrato psicológico de um caramelo, endereçado ao Mouro pela voz do Hilário. Se não tendes presente relembro-vos, aquele em que se exalta a dissolução provocada pelos sucos salivares. Sei ainda da ironia dessa situação, em que o Pinote é caramelizado por forma a embrulhar o Mouro com um lindo papel colorido, capaz de fazer salivar uma criança. Notai a circularidade do processo, do húmido ao seco e de volta ao húmido, não fosse o Hilário um alquimista do quotidiano. E, se ficasse por aqui, seria um retrato neorrealista, puramente mandibular, como aqueles em que as pessoas sorriem com desmesura, onde o traço se faz dos maxilares para dentro, da forma física para a textura psicológica, do todo para o detalhe, descrevendo o que acontece a um caramelo quando se coloca entre os dentes. Prefiro, contudo, traçar o Mouro de outra forma, de dentro para fora. Sei que não é uma abordagem utilitária e tem tendência a encabelar-se nas narrativas, esquecendo os fins. Mas eu não consigo deixar de olhar para o Mouro com alguma ternura. E o que é a ternura senão a vontade de passar a mão pelo pelo, e depois disso todas as desculpas são possíveis, todos os defeitos são compreensíveis, engraçados até, vistos como tiques de personalidade, sinais que não incomodam. Gosto do Mouro, é senhor dos seus humores, húmidos e frios, segundo a formulação clássica, mas que aqui, neste ermo do império temperamental, ganham a forma vulgar, aquela que troca o frio pelo lento, que é a melhor maneira de resistir aos calores. Gosto do seu arrastar previsível de argumentos, da sua lengalenga entediante, não pelo que ela diz, mas pelo que me provoca. Se a preguiça é um pecado capital, o deixarmo-nos enlaçar pelo torpor é divino. Gosto sobretudo das suas fraquezas, aquelas que o põem a falar, dos pequenos arranques que o tiram da inércia de máquina adormecida. Desculpo-lhe o favor que fez ao Hilário pela extraordinária interlocução com o porco, pois sei que separar um do outro é ter nenhum. Ambos irrompem como um soluço e abrandam de seguida, voltando o Mouro ao estado inicial de uma máquina sem memória. Assim se explica a sua suscetibilidade à pressão, a facilidade com que se aviva, esbraceja e atira uma resposta. Tem por isso a Joaninha a missão simplificada, até porque o próprio Mouro se enternece pelo destino da pequena. Mas, para o completo retrato de um caramelo é necessário juntar os dois pontos de vista, o do Hilário e da Joaninha, uma vez que no segundo se alimenta e cresce o caramelo para ser tragado pelo primeiro, num movimento inicial de dentro para fora seguido de um movimento oposto de fora para dentro, como se pode observar numa qualquer série sobre a vida animal. Por isso, quando Joaninha lhe perguntou sobre o que sabia acerca da prisão do pai, o Mouro encostou-se à parede e respondeu naa.

sábado, 13 de janeiro de 2018

Da arte de bem atirar – Armindo

Nada pode selar melhor um início de amizade do que um ato de generosidade seguido de um outro de compreensão. Comigo foi o mesmo, disse-lhe o Zé. Armindo sentiu derreter o corpo enorme, um calor subiu-lhe pelas pernas acima, apropriando-se da cabeça, deixando-o num estado turvo para o qual não teve nenhum tipo de preparação. Era a segunda vez que se deixava baralhar por insignificâncias, e tudo na mesma semana. Por razões diferentes é verdade, mas em comum, em ambas, sentiu vontade de abraçar quem tinha pela frente. Conteve-se. Não era rapaz para mariquices. Tinha uma reputação a manter perante a trupe que o olhava com uma atenção mediada pela interrogação. São estas situações que podem catapultar um chefe para a aura que será eternamente recordada, lembraste quando o Armindo se virou para ele e, ou, então, lançam as sementes da desordem, quando se começa a remoer das capacidades do chefe, sentindo-se a estripe de traição que resulta da desilusão, antecâmara do colapso, em que cada qual ao descrer do chefe se acha especial. Homem mesmo seria desdenhar da escopeta, fazer dos seis falhanços prova provada da sua inutilidade, dar um piparote no Zé e pô-lo a correr dali para fora à fisgada, mostrando a superioridade das artes tradicionais sobre as modernices do tiro de flober. Mas Armindo não estava para aí virado, e, tendo deixado passar o momento, deu a vez ao Zé que se ofereceu para o industriar na arte de bem atirar. Foi uma voz débil que assentiu perante uma audiência de boquiabertos rapazes de fisga descaída, com o elástico a baloiçar a descontento. Elásticos empoeirados todos, alguns já a necessitar de substituição pelas mordidelas sofridas de pedras mais pontiagudas que aproveitam o puxar do elástico, o refinar da espessura, para deixarem a sua marca. Se o descalabro de um exército perante o olhar dos seus generais é horrível o desconsolo dos soldados perante a renuncia daqueles que os comandam é um momento de uma beleza lírica capaz de encher salas. Filas de rapazes de calções, rotos, remendados, de olhos encadeados pela luz de palco enquanto o Zé ajuda o Armindo a encaixar a coronha no ombro, lhe diz para não fazer muita força, apenas a suficiente para lhe tirar o peso dos braços, para vencer a tendência para descair, passar-lhe o carrego do chão para o ombro, que coloque os pés em paralelo, um atrás e o outro à frente, torcendo o torço, numa leve reminiscência das gravuras dos antigos egípcios, posição de uma inegável presença cénica, que encoste levemente a face à madeira, sentindo-lhe o cheiro à medida que vai procurando a mira com o olho e o dedo tateia em direção ao gatilho, mirando o alvo através da argola com o piquinho no meio, alinhando este como outro lá na ponta do cano, e agora fazer pequenos movimentos com os braços, bailando o cano em volta da lata, como quem faz a assinatura antes de fazer a obra, e por fim, diz-lhe o Zé, que sustenha a respiração para que o movimento do dedo sobre o gatilho aconteça no mais completo vácuo, e o Armindo faz a lata soltar um lamento que desencadeia o coro dos rapazes tristes.

domingo, 7 de janeiro de 2018

Mouro – Joaninha

O Mouro é castanho e tem uma forma engraçada de falar. O som abafado de palavras que sem sucesso se debatem para terminar, como se uma força se agarrasse aos dentes impedindo-os de se afastarem em demasia, trazendo-os de volta à palavra seguinte, produz um falar em surdina inacabada. É assim que Joaninha se recorda dele. Aos serões, sentada ao colo da mãe, no banco de pedra do lado de fora da casa, ouvia aquela que considerava por excelência a conversa dos crescidos. Percebia pouco. Percebia que se falava do pai, ainda que nunca o seu nome fosse pronunciado, e, juntando tudo, concebia que de um grande mistério se tratava. Porquê? A importância do assunto. O resguardo que lhe era devido. E, sobretudo, o linguajar do Mouro que vertia uma espécie de código que, acreditava, apenas os iniciados terem a chave. E isto dito com propriedade, pois eram frases cheias de inícios de palavras, sem vírgulas nem travessões, que ele pausadamente colocava umas atrás das outras. A mãe percebia, e ia assentando com um acenar de cabeça ou um olhar que com o tempo se tornou mais vago, fosse porque as saudades se metafisicam com o prolongar da distância, fosse porque a conversa repetida é desfocada como o eco, fosse porque se foi enfastiando dos ditos e dos não ditos do Mouro, não sei. Fosse o que fosse, o Mouro não parecia dar por nada, talvez devido ao seu apego às coisas terrenas, manifestado naquela mania de falar com os animais, ou porque o que falava era determinado pela urgência do momento, ou porque a lentidão que imprimia ao que dizia permitia o esquecimento. Mas para Joaninha isso não era problema, não lhe percebendo o conteúdo podia encantar-se com a solenidade da forma, e aí as repetições são soberanas, vão da ansiedade da antecipação à emoção da confirmação. Por isso, foi aprendendo a lengalenga de cor, apreendendo o Mouro de forma puramente sintática, como o diabo rouba a alma a um homem. Quando anos mais tarde resolveu perceber o que estava por detrás da celebração, o que o Mouro efetivamente prenunciava, partiu em vantagem. Já sabia que o Mouro era um caramelo, que debaixo do seu ar escorreito e falador estava um corpo amalgamado e suscetível ao calor. E não era difícil encontrar o Mouro, o apetite pela conversa trazia-lhe o gosto da rua. Quando se cruzavam trocavam a saudação, boa tarde Sr. Mouro, bo tard Joan cumprim tu mã, dizia encostado a uma parede caiada. Mas naquele dia, Joaninha ia decidida a entabular conversa, e tirando partido da visível moleza em que o Mouro se encontrava, aquela que é dada pelo sol matinal de novembro depois uns dias de frio e chuva, disse-lhe, sabe, tenho saudades de quando nos visitava à soleira da porta, j lá va tem, respondeu o Mouro entre o surpreendido e o deliciado, num movimento lento de lagarto, te notí de te pa, não resistiu a perguntar, sim, tivemos carta esta semana, ele pergunta por vossemecê, o corpo de Mouro, seja pelo calor do sol, seja pelo inesperado da notícia, arqueia enquanto pergunta, q di ele?