sábado, 30 de dezembro de 2017

Uma Pista Doce – Mouro

Quando foi da prisão do Pinote o Mouro várias vezes procurou Deolinda com intenção de ajudar. A intenção era boa, mas um pouco baralhada, pelo menos é assim que Deolinda a descreve. Agiu como amigo que era de Pinote e contudo pressentia-se uma hesitação. O Mouro tinha sempre uma achega de sua justiça a tudo que se dizia. Se por acaso se comentava que o casebre não tinha sido um bom local para Pinote se esconder, logo ele intervinha para dizer que não, que não havia outro como aquele, suficiente perto para ter o apoio da mulher e suficientemente longe dos caminhos mais calcorreados. Mas, se por ventura, se estranhava como teria sido possível terem sabido onde se ocultava, logo ele aventava que por aquelas bandas ninguém consegue estar muito tempo sem ser dado por visto, então o Ti Zé Ramires não foi encontrado morto lá para os lados da zurze, exemplificava, onde nem animal vai, e defunto como estava de certeza que Ti Zé não mexia nem mugia, vincava com os elementos bucólicos que, nem ele sabia porquê, enfeitavam a sua prosa, e lá deram com ele quando ainda não há muito teria arriado, tal que ainda nem os filhos tinham mostrado sinais de preocupação e já tinham o corpo do progenitor à porta para devolver à terra mãe. E lá ouvia Deolinda o Mouro, um pouco estupefata com a resposta pronta para as questões referentes às ocorrências que levaram ao encarceramento do Pinote. O Mouro colocava no tratamento deste assunto a mesma argumentação atrapalhada com que foi apanhado pelo Sr. Morgado. Não é que ele estava a falar com o porco, estranhava o Morgado, sem ironia nenhuma, que era homem pio e austero, pouco dado a imaginações. Mas nem todos são assim, e lá na terra zombava-se que o Mouro teria desenvolvido poderes de falar com os animais, e por isso, se tinha escapado a um destino pior foi decerto porque o porco intercedeu por ele, que o Mouro não lhe teria querido fazer mal, e que de certa forma até lhe estava agradecido pela companhia, que passar a noite sozinho na pocilga é um aborrecimento, e uma visita é uma visita. Salvo pelo suíno, galhofava-se. Mas menos certa disso andava Deolinda. A mulher de Pinote, depois das várias intervenções atabalhoadas do Mouro, e da confissão que o Aires lhe fez sobre a conversa da Marquesa, e do rumor que se dizia o Mouro ter lançado da boca do Pinote sobre a intimidade desta última, deu-lhe para juntar um mais um e mais outro, para concluir que o Mouro sabe coisa. Passou a recebê-lo cada vez mais em silêncio, de tal modo que este, sentindo que a nascente onde se alimentava secava, foi espaçando as visitas de tal forma que passado pouco tempo já não era aparecido. Deu graças Deolinda, que não era mulher de ressentimentos, mas a quem, devido ao resultado da soma, a presença do Mouro passou a criar uma sensação de mal-estar no estômago, daquelas que provocam úlcera. Nos serões, quando à noite à porta de casa a filha lhe perguntava sobre o pai, a mãe lá lhe ia dizendo que o Mouro tinha sido um caramelo.

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