segunda-feira, 25 de dezembro de 2017

Uma Pista Difícil – Mouco

O Mouco não gosta de crianças. Quando as vê corre logo com elas. Aquilo nem aproximar, levanta a cabeça do chão, puxa o braço acima, cotovelo e mão à mesma altura, não se percebe se como ameaça, se para proteger os olhos dos raios do sol, e rosna, arre daqui. E é no rosnar proferido com uns olhos faiscados de vermelho que fica claro, o Mouco não gosta de crianças. E não deitem a culpa à bebida, coitada, que tem a costas largas. Na taberna do Manel encontram-se bêbados bem ternurentos. Sempre na brincadeira, trocando trocadilhos de camaradagem. É claro que às vezes as coisas azedam, há desafios que se transformam em desaforos, isso sim, o álcool é o responsável pelas derrapagens, mas nada que possa desresponsabilizar o Mouco do seu fel. E nem sequer é coisa que compreenda, quando não bebe sente aquele frenesim, e depois de beber fica na mesma. Não exatamente na mesma, senão de que serviria beber, é um frenesim ao ralenti e isso faz diferença, como uma forma de consciência. Nesses momentos o Mouco sente-se como o protagonista de um filme, enquanto corre atrás do Armindo em volta da mesa está também sentado na plateia, lá bem na fila da frente, com o ecrã a entrar-lhe pelos olhos adentro, a observar-se, como um cavaleiro engalanado pondo em debandada um grupo de inimigos. Por isso, quando levanta o braço e expele para os garotos, arre daqui, fá-lo de modo tão contundente, tão cénico, que já se sabe que o melhor será guardar distância. Sendo o Mouco uma pista, não é, por conseguinte, uma pista fácil, pelo menos não como aquelas que se encontram na neve fofa, feita de peugadas, seja de botas, de cavalos ou de pneus, e que se pode docilmente copiar para uma folha de papel. A Joaninha contou ao Zé que foi o Mouco que agrediu o pai dentro da prisão, e não os guardas na sequência da sua fuga, como se disse nos jornais. Quando o Pinote encontrou a porta da cela aberta já tinha levado a zurra do Mouco e foi muito a custo que se arrastou pelos corredores da prisão até ser de novo apanhado. O Mouco deve saber alguma coisa. Quem é que o chamou à prisão quando o Pinote foi preso? O Zé anda às voltas com isto. Como saber o que sabe o Mouco. É verdade que na taberna ele se vangloriou naquele dia, mas nunca disse quem foi que o lá levou. E isso foi nessa altura, porque com o desenrolar dos acontecimentos a bravata desapareceu do currículo oficial do Mouco, passou a fazer parte apenas de um ligeiro cerrar das pálpebras, acompanhado por uma propositadamente impercetível contração dos lábios. O Zé já perguntou ao Manel se sabia de alguma coisa, mas ele fechou-se como uma ostra, o molho por fora apetitoso e ela cerrada, de dentes que nem à faca se conseguem abrir, não fosse o Manel um taberneiro, trabalhando no ramo das profissões onde juntamente com o produto vendido vai a presteza para ouvir, concordar e calar. Mas o Zé não é rapaz para desanimar com dificuldades, independentemente do seu tamanho, e ocorreu-lhe que o Armindo pode saber algo.

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