sábado, 2 de dezembro de 2017

Nabo – Zé

Pode-se gostar ou não, mas nabo sabe a nabo. O resto, as repulsas e as delícias, é já uma questão cultural, e, como tal, uma questão de grupo. E o avô pertencia ao grupo dos homens formados na clareza de espírito, que cultivam uma ligação direta entre a mente e o corpo, sem rodopios, como quem tem um carro para se deslocar de um sítio ao outro e não para fazer piões. Com essa máxima montava o diapasão com que orientava a formação educativa do neto. Com este, procurava provocar ruídos bem pautados, nos antípodas do chiar da borracha do chão. Naquele tempo, quando já se ouviam uns zunzuns sobre outras possibilidades, do esbanjar da existência em curvas e contracurvas efetuadas para não chegar, e, mesmo sendo um progressista, não podia deixar de mencionar de si para si, que o Dr. Galvão cultivava a discrição com uma quase religiosidade, que estava a ficar velho. Nisso têm os conservadores vantagem, nunca se podem sentir atraiçoados pelo tempo. Assim, pode-se ler no ritual do nabo um processo formativo, no qual, consciente do fosso criado pelas diferenças de idade, o avô simulava os ruídos a que não achava sentido, raspando a fibra do nabo no esmalte dos dentes, para extrair sucos límpidos, sem voluptuosidade. Numa frase, efetuava malabarismos de juventude com bolas antigas. Podeis achar rebuscado, mas de igual modo se pode ler na pressão de ar o mesmo máximo cuidado, uma precisa delineação geométrica entre o gatilho da espingarda e o corpo do pássaro. O Dr. Galvão era um liberal de linhas diretas, e não é que não tivesse os seus vícios, os charutos que partilhava com Sr. Marquês, por exemplo. Mas a república é plural, e no seu panteão jaz a tolerância de muitos deuses, sendo missão do homem experimentar as várias roupagens com que se pode cobrir. O que ele verdadeiramente temia era o oblívio prematuro, a vida numa única veste. Por isso o nabo, que despe a boca de sabores. Mas nabo sabe a nabo. E se para o avô havia uma espiritualidade racional no seu exercício, para o Zé, objeto da pedagogia possível, ainda que cuidadosamente elaborada, o nabo sabe a isso mesmo. Foi esse o gosto com que ficou na boca, tendo-o assaltado uma dúvida forte, porque é que os avós não disseram nada, já saberiam que não tinha sido o Pinote, ou desviaram o assunto por ele ser delicado. Como vedes, na altura o Zé já vivia com interrogações, mas era então mais dado à procura de respostas. Começou a fervilhar por dentro. Sentiu-se investido da responsabilidade de que foi empossado. Era igualzinho ao avô, disse a avó. E a questão do Pinote não era alheia à família Galvão. Ouviu uma vez na taberna do Manel, enquanto este passava os pássaros por um fio de azeite quente, o Mouco dizer entredentes, para que ouvisse, olha, olha, o netinho do defensor do Pinote, o que perdeu o pio. Foi assim que foi sabendo da história que se contava baixo, porque o Hilário tem muitos ouvidos, de um Pinote que não tinha medo de ninguém, que enfrentou o Hilário e que o avô o defendeu em tribunal da acusação de ter morto o Capitão Simões. O Pinote haveria um dia de regressar, dizia-se.

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