domingo, 31 de dezembro de 2017

Da Fisga a Flobert – Armindo

Educai os vossos moços na fisga, serão exímios na lança, pode-se ler num tratado da Grécia Antiga sobre a formação da juventude. Quando pela primeira vez encontrei esta citação não queria acreditar. Pareceu-me conter duas imprecisões que a esvaem de credibilidade, a primeira de ordem social e a segunda de ordem técnica. Debrucemo-nos primeiro sobre a segunda. Estareis de acordo comigo que não é de todo verossímil que no manejo da fisga se possam desenvolver as competências requeridas pela lança, e, contudo, de facto não é esse aspeto técnico a que me refiro, mas sim a que na Grécia Antiga não haveria fisgas, dado que um dos seus constituintes principais é a borracha. Mas a dúvida instalou-se em mim quando me ocorreu que talvez o tradutor, procurando dar uma tonalidade mais atual e apelativa, tivesse preterido a palavra funda, que seria mais fiel, pela de fisga, capaz de provocar uma imagem mais consonante na imaginação do leitor moderno, transmitindo com maior eficácia a intenção da frase. E é assim que também através da segunda chego à primeira imprecisão, a de ordem social. Suponho que já na sua origem o dito enferma dos problemas técnicos que refiro, agora não os linguísticos, mas os do uso e manejo de armas, e que eles são propositados. Senão vejamos, a funda é uma arma menos nobre, historicamente associada a pastores, usada contra animais e nas suas refregas pessoais, enquanto a lança está destinada ao uso da aristocracia e com ela se traça a história, senão vejamos todos os corpos traçados por lanças na Ilíada. Ocorre-me assim que talvez esta citação seja uma das muitas reformulações de uma mesma estória de que a história é feita, e que terá um dos seus expoentes na formulação Bíblica de David e Golias, em que o primeiro com uma simples funda e meia dúzia de pedras derrota o poderosamente armado Golias. Tem este introito o único objetivo de dar alguma universalidade ao que aconteceu naqueles meados dos anos sessenta em pleno Alentejo. Desconfiando, ou não, do caráter intemporal que os pequenos gestos podem ter, sai o Zé armado da sua flober em direção a um descampado onde sabia de antemão que o Armindo e o seu bando se dedicavam à prática do tiro de fisga. Não se enganou, pois quando lá chegou estava Armindo chefiando um exercício de acertar em latas velhas que, por lhes faltar a carapuça, se encontravam a amofinadas por todas as pedradas que levavam. Dois aspirantes situavam-se do lado de lá do muro onde as latas assentavam com a responsabilidade da sua reposição rápida, o que faziam de uma forma brusca, levando a supor algumas situações de imprecisão de tiro ou falta de organização. Do lado de cá o Armindo dava instruções sobre a arte de bem fisgar. Zé fez-se distraído e passou com a flober ao ombro tão junto ao grupo que foi impossível a Armindo inibir-se de pedir para experimentar dar um ou dois tiros. Claro, disse o Zé, passando-lhe a arma para a mão e meia dúzia de chumbos que Armindo colocou entre os dentes. Seis vezes se fez silêncio e em todas elas o Armindo falhou.

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