sábado, 23 de dezembro de 2017

Clube – Zé e Joaninha

Pertencer a um clube tem o seu quê. Não àqueles cuja admissão apenas requer a convicção, mas aos propositadamente faltos de espaço. Normalmente meia dúzia de cadeirões de pele numa sala impregnada de madeiras, castanhas escuras quase sempre, tenho que carregar nos plurais para descrever com precisão o tom carregado destes lugares. Clubes onde não se vai para falar, mas sim para trocar umas esparsas palavras, de uma íntima circunstância, como quem convive com um parente há muito amado e morto. Tudo o demais acontece com cada um na sua aura, folheando longamente o jornal, no vagar de quem o que possa acontecer no mundo já pouco ou nada lhe diz respeito, a não ser para uma observação curta, dita para dentro ou para o cadeirão ao lado, carregada de uma confirmação que nem sequer pode ser cínica, pois os que por ali assentam nunca chegaram a desacreditar das convenções sociais. Lugares conservadores por natureza, onde a leitura de jornal é como um sossegado jogo de paciência em que com cada notícia se preenche uma entrada na ontologia que descreve o universo. No caso do Pinote não podia ser mais simples, agitador mata capitão responsável pelas forças da ordem, diz-se no título principal, seguindo-se, a letra mais modesta, a indicação que foi durante uma tentativa de fuga que se deram os factos. Já no fim da notícia se informa que o indivíduo, de alcunha Pinote, muito embora tenha oferecido resistência, foi rapidamente detido pelas autoridades e que terá ficado ferido com alguma gravidade. Está a acontecer, diz um membro ao fundo, por entre as folhas grandes do jornal que segura com mãos brancas, de dedos compridos salteados por pelos tranquilos. A observação é tão certeira que não surte nenhum comentário. Não para de chover, observa o Zé para preencher o silêncio que se criou no casebre desde que chegou. As chegadas inesperadas dilatam o espaço, mas não de forma uniforme, dão-lhe um jeito alongado do lado do que chega à custa de uma contração no sítio do que estava, provocando incómodo a ambos, ao primeiro, a sensação de ligeiro resvalar no sentido oposto ao movimento de chegada, e ao segundo, uma tração sem explicação em direção ao chegado. Ou seja, o imprevisto provoca um deslocamento, o que neste caso nem pode parecer surpreendente dado o estado do casebre, descaído de um dos lados. Assim, se quando Joaninha ali se arrumou parecia que não caberia mais ninguém e todos os ruídos eram próximos, agora com o Zé sentado ao seu lado o interior do casebre afunda-se, para além da porta, até à janela triangular, e os sons da água a bater nas traves quebradas mal se percebem ao longe. Sim, quando eu cheguei estava a começar, confirma Joaninha, é capaz de ainda demorar um pouco mais. Ficam assim a olhar pela porta resignados a que a borrasca passe. O teu pai não é o Pinote, não resiste o Zé a questionar, não tirando os olhos do branco aberto pela porta. Se Joaninha respondeu ou não, não sabemos, pois nesse momento a chuva disparou em tal saraivada que o melhor é calar e ficar à escuta.

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