domingo, 10 de dezembro de 2017

Casebre – Joaninha

Se quisermos descrever um lugar no Alentejo, então o melhor será utilizar o outono como pano de fundo. Assim, escapamos aos estereótipos do estio, da acalmia, dos silêncios afogueados. É quando dois nomes nada parecem ter a ver um com outro que o seu cruzamento nos pode trazer algo de novo. Há, por isso, duas formas de dizer. A primeira, preguiçosa, é como um insulto, feito de uma única palavra, na certeza de abrir um dicionário do outro lado. Desta se fazem as exaltações para fora e por sua cautela se inventou o politicamente correto. A outra, lânguida, revela uma entrada em branco, produz um instante de vazio, como o momento em que água ameaça lançar-se num pulo. Desta outra se fazem as exaltações para dentro e por sua cautela se criaram os grémios literários. É por isso que vos descrevo no outono o casebre alentejano onde Pinote se escondeu há mais de dez anos atrás. Sabemos que esteve lá com o verão, tão dado a contemplações, não como imperativo metafísico, mas como uma estratégia de contenção do suor, feita de movimentos pausados. Sabemos que foi isso que fez durante o dia, mas que de noite se entregou a conversas com a natureza, argumentações descabidas, a não ser que venham a ser apresentadas como fontes de profecias e encontrem algum seguidor. Não foi esse o caso, até porque não sabemos o que se transacionou e para encontrar num sapo alguma manifestação do divino é necessário regressar a tempos mais primordiais. Portanto, um casebre. Derrubado, quase todo ele. Telha chapada, enegrecida pelo calor. Janela triangular, pela fraqueza de uma parede. Traves em vê, com espigões secos de revolta. Branco tingido, pelo azul dos rodapés. A laje poeirenta, onde Pinote se deitou. Podia ter-se transformado numa ermida. Daquelas aonde se vai em romaria durante uma tarde quente de verão à procura de vinho fresco do barro e conforto na ordem existente. Mas isso é no verão. O outono é áspero. Quem por aqui vem é a Joaninha. Não teme o azul escuro cinzento, que atormenta dos céus. O vento que se levanta rápido, trazendo o cheiro a chuva. Põe a capa e diz à mãe que já volta. Quando se afasta já as mulheres estão a tirar a roupa dos arames. Não faz o caminho do Aires pois o ribeirão já leva água. Ainda assim, tem que saltar por entre rochas pontiagudas, que por aqui a chuva é de visitas brutas que não amaciam pedras. Quando chega junto do casebre, as escassas pingas grossas, que voam oblíquas puxadas pelo vento, reduzem o espaço de permeio. Rapidamente se abriga de pernas cruzadas sobre a laje. Ajeita uma ou duas telhas para impedir a entrada da água. O vento entra pela janela triangular e escapa-se pela porta, fazendo uma tangente ao corpo de Joaninha. A água escorre das telhas molhadas para cima das traves quebradas, enchendo o casebre dos cheiros quentes do verão acumulados na madeira. Uma atmosfera de estufa que é por rajadas empurrada para fora. O repentino aumento do ruído da água a correr no ribeirão leva Joaninha a desviar a atenção das traves ensopadas, quando enfrenta dois olhos molhados e um bafo quente que pedem para entrar.

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