quarta-feira, 1 de novembro de 2017

Sétimo Céu – Armindo

Aquele deixai o Zalo em paz entrou pelo Armindo adentro como um trovão. Paralisou-o. Dos pés à cabeça. Foi um relampejar frio que lhe subiu pelas pernas acima, seguido de um aumento instantâneo do metabolismo que lhe colocou o corpo em chamas, e a culpa de tudo estava no coração que se atirou numa cega corrida em frente, sem razão, por isso, os membros, mais sensatos, não tugiram nem mugiram, deixaram-se estar, milhões de anos de evolução deu-lhes a sabedoria que dali só podia vir asneira. Já os companheiros estavam estupefactos. O gigante Armindo. Não entendiam. Há nas diferenças de idades mistérios que só a química pode explicar, e num grupo de formação tão recente, onde o líder, por questões de autoridade, recrutou membros mais novos, estes são desprovidos de ambos os atributos necessários ao entendimento, a idade e a química, já para não falar do conhecimento dos seus efeitos, que a adesão à causa do Armindo marca um rumo onde o saber não ocupa espaço. O próprio não dava conta de si, as primeiras manifestações químicas são como os vulcões, lançam a poeira que esconde a lava. Não é, com certeza, nas corridas à volta da mesa que nos preparamos para estas eventualidades. Quantas vezes não terão os cidadãos de Pompeia passeado à volta do Vesúvio, usufruindo da bela paisagem das encostas onde as videiras prometem o doce vinho. E Joaninha, embora fizesse fé de ignorar o que é belo, não podia lutar contra a própria natureza. Isso entrou pelos olhos de Armindo de forma nublosa. O que primeiro viu foi o desaforo, o desafio, a ele, chefe de pandilha, engalanado nos seus próprios sucessos, feito em frente do seu exercício, em pleno campo de batalha, quando se preparava para uma investida, tendo já prometido aos da sua trupe o desfrute do saque, que da divisão de dividendos se fazem as organizações fortes. O que temeu primeiro foi o descalabro de uma ordem, feita à chapada, é certo, mas uma ordem tout court, uma paz romana exportada de casa, que deixa todos dormir tranquilos sabendo com o que podem contar no dia seguinte. Por isso sentiu ódio por Joaninha, reviveu-lhe o seu pior pesadelo, alguém a quem não se pode dar um par de sopapos, pedra basilar da sua construção cotidiana. E em segundo lugar, e isso sim foi devastador, e a razão última porque foi incapaz de esboçar uma retirada estratégica, virando costas e entoando com desdém para os seus seguidores, raparigas, foi aquela sensação doce que a imobilização muscular lhe trouxe, uma magia que os poetas enchem de palavras, mas que Armindo não verbalizou para além de dois ou três grunhires, que a língua, sorrateiramente avisada pelos membros, resolveu não levar adiante, destravando-se do cérebro. Foi a rapariga que o soltou dizendo-lhe, que estás para aí pasmado. Deu corda aos sapatos, afastando-se atabalhoadamente, pressentindo algum desconforto nas suas hostes, um abaixamento de moral resultante de uma crise de liderança, que teve de resolver nos dias seguintes aplicando corretivos, enquanto ia descortinando que uma coisa como esta não deve ser deste mundo.

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