sábado, 11 de novembro de 2017

A hora da refeição é sagrada – Dr. José Galvão, Esposa e Zé

Como qualquer homem treinado na barra de um tribunal, o Dr. José Galvão gere com precisão as suas expressões faciais. O rosto é como um cão amestrado, sentado, com os olhos abertos e a língua esgueirando-se pela boca entreaberta, preparado para receber uma ordem, fazer uma graça. Tem, por isso, um ar patusco, a que facilmente nos afeiçoamos, e que os incautos sentenciam ser inofensivo. Mas lá dentro está uma máquina bem oleada, recebendo informação detalhada através de globos oculares um pouco debruçados para fora, como uma velha à janela. É por causa desse olhar, que não consegue disfarçar um pendor esbugalhado, que aqueles que o enfrentaram, aqueles que de alguma forma tiveram de com ele esgrimir alguma razão, seja no tribunal ou na política, afirmem em privado, e apenas para os de confiança, aquele ar é uma armadilha. Mas todos sabemos que com vinagre não se apanham moscas, e, das intenções, nada há a apontar ao Dr. Galvão. Pelo menos eu, que partilho as suas opiniões, mesmo não podendo dizer com toda a certeza quais são, só vos posso assegurar que não há, até ao momento, neste relato, nenhum outro homem, ou mulher, que me inspire mais confiança, e que eu não abdique de qualquer atividade ou compromisso, para poder partilhar uns momentos com ele, trocar uns pareceres, deleitar-me como me perscruta enquanto falo, seja do tempo ou das pessoas, com um sorriso que me inspira a continuar. E não encontro melhor forma de figurar o Dr. Galvão fora da prisão do corpo, que pouco deixa acrescentar a um par de olhos, um nariz e uma boca, delimitados por duas orelhas, do que uma mesa posta, pronta para a refeição, para receber os convivas. Aí sim o posso descrever em plenitude, expandindo-se por todo o tampo, com os pratos vazios, sorridentes, recetivos, os de sopa por concavados, rechonchudos, encimando os rasos, como pétalas de uma flor expetante, os debaixo por silenciosos, sorrateiros, aguardando a sua vez, para depois do desfolhar do acolherar do creme, pouco a pouco, até ficar apenas a pequena película, que da loiça se diz suja, nota de um estômago começado a aconchegar, dum amaciar dos modos, um escorrer das educações, das empatias, queres mais sopa, pergunta a avó, que o que primeiro foi regulado foi a partilha, na génese da moral. E o avô silencioso, todo ouvidos, porque a hora da refeição é sagrada, que a ele coube a honra de a concretizar, lá fora colheu os frutos para agora os plantar sobre a mesa, observante, expetante, sorri, deixa acontecer. E o Zé que trazia aquilo guardado, ali por alturas do diafragma, onde o estômago e os pulmões se acotovelam, toques simpáticos, brincalhões, na hora da refeição, porque a hora da refeição é sagrada, diatribes inocentes, sem sarcasmos, da mesma forma que se podem tolerar brincadeiras de crianças na hora da missa, e ainda assim, ali andava a coisa, que teimava em não sair, empurrada para cima, empurrada para baixo, torneada em todas as possíveis variações com que poderia ser dita, e quando desarmou a guarda saiu tal qual a ouviu de Zalo, não foi o pinote que matou o capitão simões.

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