sábado, 7 de outubro de 2017

Uma questão antiga – Zé

Encoberto pela árvore, Zé tem o olhar distante de quem perscruta o horizonte. Escolheu um cabeço de onde pode antever a aproximação de alguém e tirar partido da posição de cócoras. Não era este o plano com que saiu bem cedo da casa dos avós pela manhã. Com a pressão de ar, trazia o destino de alguns pássaros em mente. O despertar do sol, e o ar fresco, torna-os incautos em chilreares e saltos de ramo em ramo. Zé tem boa pontaria e cada sortida é combinada com o fritar dos pequeninos na tasca do Manel, que a avó não é fã de carne doce, nem pretende favorecer os dotes de caçador do neto, para além de ter horror a sangue, deixando o degolar e depenar da galinha à criada, com ordem explícita que seja feita longe da casa e avisada com antecedência para não se ver surpreendida. Foi o avô que lhe comprou a arma, em divergência com a mulher, e acertou com o Manel que tratasse de converter a sorte do miúdo em feitos, partilhados e louvados, que o reconhecimento social dos atos de um homem arma-lhe o orgulho e alenta-lhe a determinação. Por isso, quando pela primeira vez saiu de casa com o cano reluzente de novo, lá estava o tasqueiro, famoso na terra pelos seus petiscos, e não posso deixar passar sem enaltecer a carne de porco do alguidar, a elogiar-lhe o garbo e oferecer-se humildemente para adornar as suas realizações de caçador com azeite e ervas. Foi assim, com a tranquilidade de quem sente a conjugação dos astros, como a personagem central de um quadro caça, que Zé partiu e não dececionou. Ganhou fama como atirador e, entre os miúdos menos abonados da sua idade da terra, passou a ser alvo de admiração e inveja, pela pontaria e pelo fuzil. Estes, limitados à caça com custil, a qual, ainda que possa trazer resultados mais frutuosos, especialmente quando dispostas em recantos fresco à sombra por forma a que as agúdias agitem as asas, não dá azo a façanhas nem a narrativas. E isso faz toda a diferença. De que se pode gabar o que monta a armadilha e depois tem de confiar que a sorte lhe lá coloque a presa? E, se, num momento de desespero, trouxerem à baila que também batem o terreno quando com a sachola procuram o formigueiro. E, de que é necessário olho para distinguir aquele que as tem com asas. Ou, da arte de escavar um marmelo onde as arrolhar, para engordarem e ficarem viçosas, apetitosas para os olhos dos pássaros. Quem se arriscaria a comparar os dedos a correrem abaixo acima o cabo de um pau levantado alto para bater com força na terra com a delicadeza de toque de dedo dirigido pelo olho certeiro. Por isso, o que fica ao longe de cócoras observando o aproximar do pássaro, sofrendo com as suas hesitações, sonha com o que tem no dedo o poder de por fim a todas as indecisões. Mas hoje não foi assim, apanhado desprevenido, alguma coisa que comeu na noite anterior, ali está como um índio de guarda ao acampamento, com a espingarda entre os braços e os calções em baixo, quando houve uma voz que lhe diz, não foi o pinote que matou o capitão simões. Assim, tudo em minúsculas e na voz vacilante de miúdo imberbe.

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