domingo, 15 de outubro de 2017

Minorca – Zalo

O mundo é feito de perspetivas. Assim visto de baixo, o minorca Zalo parece enorme. Nos seus cinco ou seis anos, junto ao agachado Zé, depois de ter dito o que lhe parece ser a derradeira fala, aquela que os grandes atores anseiam poder dizer. Uma fala que agarra plateias, que as afunda nos assentos estofados em que assistem ao espetáculo depois de jantar, de estômago cheio, quando a sangue deixa o cérebro, abandona as preocupações, para rondar os sucos digestivos, como uma matilha de coiotes uma vaca moribunda, ficando a mente vazia, absorvente de personagens, de ambições, de poderes, de amores, de ciúmes, de batalhas, de triunfos, uma porta aberta para a vida dos outros, para a vida pela libertação da vidinha. Por isso Zalo, o minorca, é gigante. Zalo o filho de Aires, o cabeça no ar, o protegido da Sra. Marquesa, vá-se lá saber porquê, talvez porque o tormento procura a expiação, agarrando-se à terra, como um s que numa ponta cerra o chão e na outra o esticador, lançando as fundações sobre as quais se fazem as obras. Por isso, aconteceu um milagre, que é um resultado para o qual não se encontra causa nas ações que o precederam, como é que o Aires encontrou a Alzira, uma mulher prática, uma mulher rente ao chão, sem educação, boa a fazer contas, invisível para o imaterial. Dizem que foi a Sra. Marquesa que a viu, que lhe falou, que lhe sugeriu o Aires, que lhe prometeu o dote, o rebanho do Sr. Marquês. Dizem que Alzira pediu uma parte do leite para fazer queijo e direito para o vender, para arrebanhar algum para si. E não é que o Aires não lhe agradasse. As mulheres terra a terra acham graça aos distraídos, àqueles que não dão com o caminho, pois sabem bem o que lhes falta a elas, e por reconhecimento tornam-se deusas da fertilidade, redondas, à volta de uma panela negra cheia de sopa. Por isso Zalo é gigante ao pé do Zé que mal o conhece. Sabe que é um miúdo da terra, filho do Aires, o pastor do Sr. Marquês, e é tudo. Mas agora, de cócoras, nesta perspetiva, sente-se minúsculo, ele, Zé, o caçador, o neto do Dr. Galvão, homem respeitado na vila, até pelos opositores políticos, pois um meio pequeno não permite demasiados antagonismos, ou não casou o seu filho, o pai do Zé, com a filha de um grande proprietário, é verdade que ela também aderiu às ideias revolucionárias, que andam ambos fugidos em França, guedelhudos, dizem os familiares daqueles que também para lá foram por razões mais prosaicas, razões práticas, e, ainda que a milhares de quilómetros da terra, não se deixaram contaminar pela indiferença, filha da liberdade e da igualdade, e por isso comentam, vi por lá o filho do Dr. Galvão e a filha do Sr. Comendador, coitados. E há melhor indício da chegada da revolução do que quando os oprimidos, em vez de se revoltarem, se compadecem da decadência dos senhores, os medem pelos mesmos valores com que são discriminados, o aprumo, a aparência, o decoro, a disciplina, a continuidade, os pilares da instituição conservadora. Por isso, o Zé, com os calções na mão, embalando a pressão de ar, sente-se nu, aos treze anos, perante Zalo e a revelação que sai da sua boca.

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