domingo, 22 de outubro de 2017

Com ele ao colo – Joaninha

Joaninha quase viu Zalo nascer. Quase, pois um parto não é espetáculo para uma criança de oito ou nove anos. Nem para ninguém, dado o seu desfecho incerto. Por isso, se espera que a natureza faça o seu trabalho, que dê vida ou a retire. Por isso, não é a chegada da hora que trava os homens de irem aos seus afazeres, submissos ao destino. E o que sai de entre as pernas da mulher é visto com a desconfiança com que se olham para as promessas. Que vingue primeiro, que mostre do que é capaz, antes de começar a ser levado a sério, alguém com que se possa contar, para trabalhar e para procriar. Por isso, a mulher é deixada só, ao cuidado de outra, mais experiente, de uma experiência contada no número de partos, pouco interessando do seu sucesso ou insucesso, mais como celebrante do que como resultado de uma qualquer capacidade técnica. Deolinda foi tomando essa função. Ter o homem na prisão emprestava-lhe a pureza celibatária requerida para a consagração da monstruosidade com que a natureza se manifesta nestas situações. A limpeza do sangue do corpo da criança, a recolha das entranhas esponjosas que tombam no chão, por entre um bailado de moscas exultantes com o que todas as manifestações de vida lhes profetizam. Joaninha quase viu Zalo nascer porque esteve do lado de fora. Recorda-se que Alzira blasfemou contra toda a criação e jurou que nenhum homem lhe voltaria a provocar uma dor tão tardia. Quando chegou a sua vez de pegar nele ao colo, surpreendeu-se com o seu aspeto engelhado. Não era bonito. Veio ao mundo com ar de bicho façanhudo, parecendo ter sido moldado pelas imprecações da progenitora, como se de uma primeira manifestação de amor filiar se tratasse. Há em certa fealdade uma postura de desafio, de régio isolamento. E por isso, Joaninha, achou-lhe graça. Na ausência do pai, vinha cultivando o gosto pelo prático, procurando remover todos os vestígios de estética, que via como uma afronta ao cárcere e à reclusão. Nas escassas visitas que lhe fez, nunca viu o Pinote atraente que regalava os olhos das mulheres, centrava-se antes na sua determinação e vontade de lutar, que são avessas a contemplações. As exaltações primordiais de Pinote foram acamadas na prisão sob as rotinas diárias, a partilha com os camaradas e as demonstrações de existência com os guardas. Trazia assim na memória um pai escuro, de corpo escorreito pela perseverança, de palavras escondidas, como os doces guardados à chave no armário, que se comedia na demonstração de afetos e lhe falava de uma forma lógica, por frases marcadas por antecedentes e consequentes bem explícitos, exemplos claros, escolhidos a dedo, como se de exercícios pedagógicos se tratassem. Terminada a visita ficava com muito tempo para cimentar a lição. Por isso, quando depois dos gritos de revolta de Alzira recebeu Zalo ao colo, com o seu rosto comprido, de faces assimétricas, olhos pequenos e fechados, que olhavam com desconfiança fugidia, e longos cabelos pretos e sebosos, viu um bicho acabado de sair da toca, e recordou-se de Pinote.

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