segunda-feira, 11 de setembro de 2017

Tombado – Catarina

Vou direto ao assunto. Se um homem casado anda com uma, duas, ou mesmo três mulheres, o que a sua mulher, a de direito, deve fazer é, quando chega a noite, quando já estão ambos no quarto, dizer-lhe, então o que tu queres é isto, e passar a noite a fazer sexo até que ele tombe de cansaço. Não quereis acreditar. Pensais que estou a brincar. Que falta de amor próprio o desta mulher. Sei bem o que vos vai pela mente. Digo-vos que não passais de uns românticos. Quereis porventura que ela faça a uma cena, que o encoste à parede, que grite primeiro e chore depois, ou o inverso, tanto faz, uma vez que o resultado é o mesmo, ele vai sentir-se atacado, refazer a sua estratégia, fazer uma pausa, um interregno, para tomar folgo, para retomar posições, e depois um dia voltar ao mesmo, mais robustecido, melhor preparado, para o ataque e para a defesa. Ou então sugeris uma atitude mais extrema, que tudo acabe logo ali, e se vá embora, pois que coisa maior existe do que o eu, e o mais sublime é que ele seja amado por outro eu, e de dois eus fazer um só. Mas que maior idiotice essa, que pieguice, ou julgais que essas outras mulheres também não se julgam imbuídas do seu eu, e como tal com os seus mesmos direitos. E o que pensais que aconteceram aos biliões de eus que já passaram pela face da terra, não só de seres humanos, mas também de primatas, cães, gatos, e mais não digo para não vos ofender, que sois uns humanistas, sempre a puxar ao sentimento, pensais que são diferentes do vosso, que cada ser é único, que foi criado para diferir da espécie, não percebeis o contrassenso. E se não vos satisfazem os argumentos de ordem filogenética, apresento-vos os da mais básica estratégia militar. Há maior sofrimento do que aquele a que se autoinflige um exército em retirada, à mercê das constantes escaramuças, feitas, quase por graça, pelas forças inimigas, vamo-nos a eles, sim, mas deixa só acabar de beber o café, e já agora ainda vou comer um mil-folhas, sim é com a boca doce que vos dizimam, de vagar, por capricho, já me encheste a vida e agora matas-me o fastio, e lá ireis cair um a um, e nem sequer sonheis que sereis bem acolhidos onde quer que vades, pois um exército em fuga provoca maior pânico que o inimigo, é imprevisível, semente de desordem, de revolução, e cito-a no pior sentido, na sua instabilidade orgástica estéril. Muita parra e pouca uva. Ainda direis que isso pouco vos interessa, encontrareis alguém e que o importante é o afeto, mas isso é coisa de velho, de acomodado, e um dia quando perante os vossos olhos passar algum adónis iries desdenhar primeiro, revoltar-vos depois, maltratá-lo então, e sofrer por fim. Por isso vos digo, fechai-vos com ele no quarto e exauri-o de sexo até que tombe. Sois mulher e sois capaz. E então olhai-o como se olha para uma criança traquina, com ternura e repreensão na dose certa, enquanto ele dorme imóvel, com a respiração pausada, como um anjo cabeludo, um homem da odisseia à mercê de uma deusa. Então trocareis o eu romântico pela magnificência do Olimpo, e o homem será vosso escravo. Pois, assim olhava Catarina para o seu Romeu tombado.

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