sábado, 23 de setembro de 2017

See My Ships – Afonso

Tenho pavor à desordem. Arrepia-me a desorganização. Ver cada coisa para seu lado, à deriva no mar da vida. Esta batalha pode bem ser a história da minha existência. Juntar cada um, atribuir-lhe uma função, pois o vazio trespassa os faltos de responsabilidade, por muito pequena que ela seja. Se ao médico digo, cura e salva, ao sem abrigo atribuo uma caixa onde se enviar nas arcadas de um prédio. Deixe estar patrão que comigo aqui ninguém lhe mexe no carro. Mas não é fácil. Têm em si o frenesi da ilusão da liberdade. Que sozinhos são capazes. Foram biliões de anos ao deus-dará. Ficou-lhes na pele. A aragem do lado de fora levanta-lhes suspeitas, a que chamam intuições. Pressentem que esta ordem, por muito forte e una que pareça, tem dias. Por isso ando nesta azáfama, ora os presenteio com incentivos, pequenos apertões no lóbulo da orelha, ora lhes descarrego o meu mal-estar, para que sintam que isto não é o da Joana. Uma luta diária, como disse, cansativa, por vezes apetece-me atirar a toalha ao chão. Ai, é isso que querem. Vão, abandonem o bom porto, sigam em direção ao mar aberto. Não quero saber. O que vale é a máquina a que Afonso se encontra agarrado. Mantém-nos, a eles, presos por um fio, à mercê da mais pequena intempérie, e a mim, testemunha silenciosa do descalabro deste corpo. Percebo agora os ditadores bem-intencionados ao verem a sua obra vandalizada com palavras de ordem. A baralhação da troca de nomes. Percebo que se retirem, que observem, que padeçam na amargura de uma satisfação. Que morram num sonho, em que veem implorar, meu Deus tem misericórdia de nós. Que implorem por eles, que implorem por mim. Que, finalmente, convictamente, juntos construam pirâmides. Gigantescos frigoríficos onde metem o corpo impregnado de óleos, para que todos nos salvemos. Que revelem a sua falta de visão. Que não podem viver sem invólucro e se agarrem ao papel que lhes atribuí por amor à ordem. Um amor bem abstrato, do qual são uma parte residual. Quaisquer outros átomos serviriam. Tão pequeninos, julgam-se grandes, sempre com o olho no carro, senhor doutor estão ali uns encostados ao seu mercedes, dizem com a satisfação da missão cumprida, carregando no mercedes. Que me adorem e Te ignorem. A Ti. Tu que, como eu, amas a ordem acima de tudo, pai da criação. Salva-me a mim, que fui feito à Tua imagem. Sei que não é em carne, esse recipiente circunstancial. Perdi a obsessão pelo corpo, a mania de o seguir constantemente, agora que se esvai aos poucos, que emite sinais cada vez mais fracos. Preparo-me para os ver partir, órgãos, células, moléculas, cada um na sua vez, cada um a seu tempo. Apronto-me para o desapego, para o fim das emoções baratas. Espero ser impregnado da mais pura lógica, resplandecente, sem a interferência das extremidades, quando começo a sentir um apagão avançado das alas para o centro. Não tenho tempo, nem corpo, para sentir medo. Estupefacto ouço o médico comentar, agora só mesmo um milagre. Enquanto a escuridão avança, só tenho tempo para dizer, salva-me.

Sem comentários:

Enviar um comentário