sábado, 30 de setembro de 2017

da união do céu e da terra – D. Eduarda e Catarina

Na clausura dos sentidos, vedados por frestas, de uma virgindade decantada pelos olhos, pela pele, na excitação adolescente pelas chispas do exterior, quase sempre imaginadas, mas abalançada a supor maravilhas, o rebentar dos membros, o rasgar das raízes, o céu e o inferno, submissões e exaltações, alma e corpo, dilacerados por longas guerras fratricidas, do bem e do mal, da energia e da razão, da astúcia e da ira, do leão e da raposa. Dependurados de uma raiz de árvore feita céu, debruçados sobre o abismo, observando as profundezas da terra, onde os corpos ardem em vida, arrebatando-se, julgando-se, evocando-nos com inveja, com vileza, atribuindo-nos a responsabilidade pelas suas decisões, queimando-se os corpos com a chama da alma, espiritualizando-se os cadáveres. Um mundo aos tombos, onde a poesia vira lei, racionalizada, penteada, compreendida, dividida em partes, distribuída em pequenas doses de moral, tomadas com os olhos fechados e a respiração suspensa, punindo o corpo, sacralizando. Só a união do céu e da terra salva. Infinita, liberta dos sentidos, extravasada, sem canais comunicantes, reconstruindo-se sem entendimento. Cada um por si, ignorando-se, acasalando ocasionalmente, em silêncio, porque o paradoxo é filho da comunicação. O céu leva um vestido de noiva, vaporosamente branco, deslocando-se lentamente com realeza, pairando, deixando-se penetrar pelos olhos dos convidados, sem vergonha, protegido por um manto núveo. A terra carrega o almofariz onde se mói um estúpido envolto em trigo, germinando monstros como ele, descarados, filhos da astúcia, primos da ira, brincos de escárnio, sandálias de bosta, untados de fluidos, percorrem os caminhos na alegria da exaltação dos cheiros. Um noivado desfeito em divórcio anunciado pela presunção dos sábios, que atiraram o céu lá para cima, um céu roubado à terra, distanciado, limpo, perfumado, lugar dos puros, dos inócuos, dos de sentidos fracos. Sábios esses que de seguida compraram o bilhete de ida para o destino inventado, com asceses, jejuns e caridades. Trazê-los de volta é missão do poeta, despertar-lhes o odor, devolver-lhe o corpo. Para isso prepara o casamento, um festim onde as frestas dos sentidos sejam trespassadas pelo estrondo das trompetas, as escadas lançadas às muralhas, os sentidos degrau acima, infiltrando-se pelas narinas do céu, recordando-lhe as entranhas, levantando-lhe a saudade da terra, porque de uma boda se trata. Do recontro soltam-se as águas, fortes torrentes dissolvem o castelo, levam as escadas na enxurrada, enchendo as terras de delícia, não de castigos. E se da cópula saírem diabos e anjos, irmãos de sangue para se guerrearem, então se restabelece o prazer infinito da energia, porque tudo o que vive é sagrado. Por isso, eu, que não tenho a habilidade do circunstancial, apenas consigo descrever brevemente a visita que, naquele domingo, depois da missa de D. Eduarda, Romeu fez, com Catarina, a sua mãe para almoçar. Sogra e nora olharam-se cúmplices, e Romeu estava cintilante.

Sem comentários:

Enviar um comentário