sábado, 9 de setembro de 2017

500 milissegundos – Joaninha e Afonso

Aconteceu tudo muito rápido, talvez 500 milissegundos, sou, portanto, obrigado a ser breve. Joaninha vê Afonso deitado em cima de uma cama com guardas de ferro. A imagem tem a carga do azul vago do pijama que traz vestido. Uma carga inodora saturada pelo ambiente assético do quarto. Mas não é esta a única imagem que passa pela cabeça de Joaninha naquele minguo intervalo. Há o silêncio marcado por um bip que aconteceu a uma eternidade atrás. Há, também, a imagem que Joaninha tem da ligeira contração dos seus maxilares à espera do próximo sinal. E esta procura imiscuir-se com as restantes para lhes provocar vacilações, pois o corpo julga-se prepotente. E depois. Depois há a postura de Afonso. Estendido. Magro. Inerte. Em perfeita simetria. Pernas. Braços. Fitando o teto. Sugere-lhe um corpo hibernado, embalado, preparado para uma viagem espacial. À espera da sua cápsula de vidro. Uma viagem no tempo. In utero. Em que o tempo apenas passa para os outros, os que estão acordados. À espera. Na expetativa da chegada. Um Afonso saltitante. Brincalhão, recém-chegado a um novo mundo. Mundos. Vários. Intrometem-se na cabeça de Joaninha. Um, muito antigo, surge relampejante. A visão de uma criança a chupar chocolate do dedo da mãe. O olhar clandestino no rosto desta adoça o pecado. Revê nitidamente o prazer, agora que não tem nada na língua. Há muito tempo que não sentia assim o fulgor do cacau. Sente-se percorrida por uma sensação de culpa. A mãe diz-lhe, o teu pai é um homem bom. Invade-a o temor da prisão gelada. Do bater das portas gradeadas. A canção que aprendeu a cantarolar para dentro, enquanto nas visitas avançava com o frio do chão a tocar-lhe as pernas. A Internacional. Uma canção disléxica dos Violent Femmes aos solavancos na cabeça do Afonso. Marcados pelos ténues bips que lhe entram pelos ouvidos. O rosto da mãe interrompido pelo da Susana. O rosto da Susana interrompido pelo da mãe. E a respiração não perde a oportunidade para se intrometer. As outras querem correr com ela. Tu não és para aqui chamada, alegam, mas o corpo julga-se prepotente. A corrente de ar dá azo a um voo. Os rostos das mulheres ondulam como bandeiras. A imagem de Joaninha chega-lhe pelo volume que ocupa ao lado da cama. Demasiado física para quem não a vê. A do Zé aproveita para se assomar. A barba. Os olhos grandes. O hálito pesado, em vaivém por entre os lábios. Sente arrepios no pescoço. Corre para se esconder. Para não ser abocanhado. O aconchego do escuro por detrás da porta. Ri fininho, sustendo a respiração. Oculta-se entre os ramos da laranjeira, sustendo a respiração. As folhas verde escuras, carregadas de cheiro. O baloiçar do ramo. O passar de uma brisa. Esconde-se dentro da tulha de trigo, sustendo a respiração. Pum, apanhei-te. Em 500 milissegundos.

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