domingo, 20 de agosto de 2017

Três Missas – D. Eduarda Santana

Búzios, cartas, vidências, tarô, runas, borras de café, palmas da mão, entranhas de peixe, ou de um qualquer outro animal de digestão nublada, que se descomprimem ao abrir e se entregam ao imponderável, expondo-se num arco-íris de tonalidades, do amarelo ao castanho, passível de interpretação subordinada a uma consciência universal. Qual consciência universal!? E não me venham cá com enredos quânticos, difíceis de compreender, cheios de aparecimentos e desaparecimentos, como numa novela em que uma criança muda várias vezes de pai, conforme o dia e a hora em que se liga a televisão, e apenas não muda mais pois as audiências acabam aborrecidas, ameaçando desligar os feixes catódicos, até porque demasiados golpes de magia também enfadam. Consciência são imagens. Um barco com os seus remadores a serem fustigados pelas dendrites que silvam no ar sob ação de musculosos coordenadores que lhes agarram pelos axónios. Essa imagem sim é parte da consciência. Ouvi os estalidos que fazem, chispas elétricas que iluminam a embarcação, a colocam em movimento, bem ou mal, dependendo das descargas. Consciência é o comandante que, se junta a imagem dos remos bailando na água com a de uma doce rapariga viking, então os coordenadores sentem nas costas carinhosas cócegas elétricas, mas coitados se, por acaso, em vez da loira entrançada, juntamente com os remos a mergulhar na água, o que vem à mente do capitão é o seu corpo de guerreiro borbulhento de sarampo e uma eternidade fora de Valhala. Não vos digo o que pode acontecer nessa situação pois tenho que vos falar de D. Eduarda Santana, e da sua consciência, quando leu na Splash! a notícia do seu filho Romeu. Ademais, é muito difícil separar a D. Eduarda Santana da sua consciência, nem esta daquela. Pelo menos costumam ser vistas quase sempre juntas e, então quando saem, não podem passar uma sem a outra. Talvez quando andaram mais arrevesadas foi durante o extravio do irmão, Gilberto Santana, mas também é verdade que nessa altura D. Eduarda Santana passava quase todo o tempo em casa. Alvitrava-se que era cautela, por causa dos tempos que então se viviam, mas de facto era por andar arredada da consciência. Uma consciência onde a fotografia do irmão embandeirado e gritando palavras de ordem aparecia constantemente a intrometer-se com qualquer outra imagem que os seus neurónios gerassem. Foi uma maçada, diz agora, com uma capacidade de transformar em palavras o que já lá vai, já lá vai. Por isso, quando leu a notícia a primeira coisa que lhe veio à mente foi a do irmão guedelhudo, e sentiu logo um estremecimento na consciência, será que vai voltar, pensou, mas o caso não é tão grave e é agora uma mulher madura, pelo que decidiu mandar dizer três missas.

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