quarta-feira, 2 de agosto de 2017

Tatuagem – Sílvia

Por detrás de uma língua esconde-se outra. Por detrás de uma tatuagem... uma clave de sol azul, sobre o ombro, descaída para a omoplata, como se tivesse escorregado, quando ainda fresca, perdido definição, a precisão da agulha esborratada, alongada, pronunciando a parte de cima com um acento sobre um corpo alargado, um acento grave devido ao decaimento, como uma balzaquiana sobre um divã, deslaçando-se das almofadas aos pés em rosca sob o encosto encaracolado. Sílvia, Sylvie em francês. Dito assim, carregando no i, em qualquer das línguas, ainda que numa mais do que na outra. Ainda assim uma questão de pronúncia. Talvez também tenha as suas variações. Esta prolongada, como um silvo, agudo este, à laia de chamamento, atirado à tatuagem, no meio da rua, para provocar o franzir da omoplata, do lado direito, esqueci de precisar, antecedendo a ligeira torção da cabeça, revelando o canto do olho e um sorriso, que visto daqui até pode parecer malicioso, pois a malícia é assimétrica, feita de uma parte que se expõe para sugerir a outra que se esconde. E quem não gosta de ser chamada assim na rua, Sylvie. Ça va, Romeuô? Soprado assim, euô. A sensualidade de pronunciar um nome de outra língua, introduzindo-lhe acentos, dilatações, influências climáticas. Por detrás de uma língua esconde-se outra. Sílvia e Romeuô. Acabado de sair do apartamento de Madalena, logo ali ao virar da esquina, aquela tatuagem recostada para o ouvir com atenção, não ao que diz, mas ao diseur, como um boxer que num ringue observa o outro que entra, impreparado ainda, pelo menos comparando com aquele que já lá está dentro, em calção, apenas com as luvas calçadas e a proteção dos dentes, quase desnudo, e observa com um sorriso o alçar da perna do outro para entrar, com as cordas ao meio, um movimento ridículo para quem se dirige para um combate, obrigado a sentir as cordas aflorando o reto antes dos assomos de valentia, essa a vantagem de se chegar primeiro. Romeuô, tu es un diseur! Poderia ser tomado como um elogio, daqueles que despertam uma satisfação que desarma, faz baixar os braços, mas ninguém gosta de ser reconhecido fora das suas artes, e por isso Romeu não desiste, especialmente agora que vem determinado a trazer o Tavares à pedra, a obrigá-lo a reconhecer a sua culpa, a expor a sua maldade. E cada frase é como um soco bem entre os olhos do Tavares. Coitado, tanto abanão. Felizmente que é soco en sac. Pas très vite, Romeuô. Pede Sílvia que gosta destas cenas au ralenti, fã confessa do Peckinpah, que um soco qualquer bruto dá, mas a pinga de suor que ressalta do impacte abrindo uma pequena cratera na poeira do chão, o dente que se solta debaixo de um repuxo de sangue, girando sobre si e projetando-se à distância, o golpe bem no centro do olho, atirando a cabeça para trás, em contínuas vibrações que parecem trazer a cabeça de novo um pouco à frente na sua queda e que melhor descrevem o que vai lá dentro do que cá fora, isso sim Sylvie. Por isso, prolongando as silabas, alongando os acentos, Sílvia questiona, Tavarrés, qui est Tavarrés, mon cher?

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