Arredio, fugidio, escorregadio, um pano que divide uma sala fazendo duas. Mais que um biombo, pois este apenas define um espaço temporário, onde nos podemos refugiar para uma intimidade momentânea, e em que até as suas dobradiças revelam contingência, pois pode facilmente ser armado ou desarmado conforme as eventualidades, encostado a um canto para libertar espaço, ou recolhido e arrumado num sótão. Sim, pode-se dizer que o biombo é arredio, que promove o retiro, mas não é presumido como o pano que se estende de um lado ao outro, parede a parede, teto ao chão, interpondo-se, não permitindo uma fisga por onde se aponte a vista procurando vislumbres, e, contudo. Contudo, define uma fronteira que exalta mais do que esconde, de uma debilidade contagiosa, cuja aproximação provoca erupções epidérmicas, vermelhidão, a atração do corpo pela doença. Sim, pode-se dizer que o biombo é fugidio, que não se lhe pode tirar os olhos de cima senão escapa, um pouco mais à frente ou mais atrás, ou encolhe-se de vergonha, ou desaparece mesmo de todo, mas o pano é intransigente, impondo-se implacável, e, contudo. Contudo, se observado de perto, não consegue esconder as lesões no entrelaçado provocadas pela força da distensão, que lhe dão um ar abaulado aqui e ali e abrem uma janela gradeada para o outro lado sala. Sim, pode-se dizer que o biombo é escorregadio, que não é sólido ao contacto, que não é de confiança, que se não tivermos cuidado pode fugir das mãos e tombar no chão, denunciando-nos com um baque seco e definitivo, mas não é dissimulado como o pano, que está pintado a preto e vermelho com irrefutáveis teses, e, contudo. Contudo, entreabre questões devido à firmeza das asserções, pois uma dupla afirmação é uma negação, e depois esquiva-se fazendo finca-pé repetindo-se. E, contudo, naquele dia, naquela sala, quando recebe a notícia, Joaninha, vê claramente o pano à sua frente, desdobrado, corriqueiro, e, ainda que sentada, afasta-se mentalmente para melhor o observar, na sua magnitude, como engloba toda a parede, o pano transforma-se num ponto lá ao fundo, um ponto de fuga, segundo a perspetiva, perdendo o seu aconchego, acaba por sentir uma tontura devido à distância, e é por isso obrigada a regressar, a reaproximar-se, os dizeres a recuperarem o significado, uma lufada de ar para colocar o cérebro de novo a funcionar, ainda assim os tremores persistem, deixa-se estar enquanto pode, mas não resiste, aproxima-se, sentada, estende a mão, abre os dedos que tocam a tela, passam de cima abaixo, acentuam a irregularidade, abaúlam, procura ver por ali, mas é difuso, pestaneja três vezes, não mais, onde não está pintado é mais fácil, faz uma estranha figura, a cabeça revirada num cone cujo vértice é o olho, focando-se na tela, como se estivesse ao junto a ela, sente então que tem a mão vazia, uma sensação de frio devido às transferências de temperatura, a ter retirado a mão do pano, as tonturas engrandecem, tenta mover os dedos para desfazer o formigueiro e cai com a cabeça na mesa, overdose, disse o médico.
In 25 de abril sempre (2017)
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