sexta-feira, 4 de agosto de 2017

Estupor – Afonso

Estupor, e ele imóvel, com os olhos abertos, em trajetória retilínea em direção ao teto, intercetada por cabeças que trazem perguntas e regressam sem resposta. Bom, isso foi depois, antes, antes do ti-nó-ni ou do ni-nó-ni, não consegue recordar com certeza, estupor, em cima da cama, imóvel, com os olhos bem abertos fixos na racha do teto, nunca tinha reparado naquela racha, estupor, um odor a gordura entra-lhe forte pelas narinas, estupor, move a cabeça para o lado para saber a sua origem mas os olhos continuam teimosamente fixos no teto, na racha, estupor, uma racha, não, duas ou três quase paralelas, estupor, tenta ver fora do teto com os olhos fixos mas o mundo desfoca-se a partir daqueles riscos criando uma abóbada abaulada de horizontes arqueados, estupor, talvez tenha sido assim que alguém intuiu que o mundo é redondo, estupor, cruza a perna direita sobre a esquerda tombando com dificuldade sobre o lado e os olhos fixos no teto, estupor, o corpo começa a reagir e move-se leve sem esforços dos músculos, estupor, ah é a pizza, ou a caixa de cartão impregnada de manchas escuras, assim vista de cima, ao pé das rachas no teto, parece uma boca escancarada, ou será antes um aspirador pré-histórico do tempo dos Flinstones, um pequeno bicho que se move sozinho tragando tudo o que cai ao chão, estupor, mas se é assim porque é que aquele pedaço se encontra lá dentro, incólume, estupor, talvez o bicho regurgite, ou pior, como um crocodilo, goste das delícias da comida podre, temperada de pequenos vermes, estupor, não, é um isco para a porcaria, robô preguiçoso, em vez de ir pela sujidade espera que se lhe agarre à gordura, que lhe entre pela boca a dentro, as maravilhas do magnetismo, estupor, as delícias do magnetismo, e Afonso ri encostado ao teto, rir é uma força de expressão, não há transferência de ar para dentro dos pulmões, pelo menos mais do que aquela que a imobilidade necessita, não um ar saltitão que contamina o exterior aos solavancos como um motor de arranque, estupor, é um riso contido, que abdica da missão de contágio, numa alegria inteira, estupor, a Susana deitada sobre a barriga, linda de costas nuas, estupor, a cara afundada na cama, os joelhos no chão, as palmas dos pés expostas, brancas, estupor, os cabelos corridos para cima, eriçados sobre a cama, descobrindo a pescoço, branco, estupor, sorri com os olhos fixos no teto, dá-lhe a mão, estupor, consegue ali de cima ver-lhe a cara, as feições escorridas, os dentes brancos, o nariz, estupor, o nariz entre o abatatado e o intrometido, estupor, tem os olhos fechados, pelo menos visto daqui de cima com os olhos fixos no teto, o rosto sereno de quem insiste em dormir, estupor, tanta paz interrompida por esta gente, ti-nó-ni, ni-nó-ni, que assim não há dúvidas, não se levantam questões, como foi que isto aconteceu, é como quiserem, ti-ni, pelo menos daqui de cima, estupor, a pairar, encheu-se isto de gente, para quê toda esta correria, estupor, está-se bem, para quê tanta presa, tanta correria, não veem que aqui não cabem todos, estupor, intrometidos, entra-lhe pelos ouvidos os comentários do miúdo mais novo, estes estão bem feios.

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