domingo, 2 de julho de 2017

Suzanne – Afonso

Arroz de cabidela tem que ser de galo. De galo pica no chão. Como aquele que se presta a ser servido no restaurante santa isabel de abrantes. Pois só um galo tem sangue na veia. Imaginem uma música dos anos 80 tocada melodiosamente no século xxi, com o consentimento, senão gáudio, daqueles que a ouviram então, porque les bourgeois c’est comme les cochons, e não é demais repetir, comme les cochons, em refrão, pois a barriga, atirando-se por cima do cinto, é como uma barreira insonorizada. Uma língua como a dos porcos dos Rolling Stones. Sim, esses que se revigoram com transfusões de sangue. Está tudo bem? Tudo. Responde-se tentando apertar as nádegas, procurando trazer a barriga para uma onda harmónica, mas nada mais inestético do que a satisfação, e logo ali vamos rua abaixo. Felizes, porque para baixo todos os santos ajudam. Não é assim com o Afonso, e muito menos com a Susana. Melodia, sim. Muita. Sussurros. Confissões entre orgasmos. Não sei se da coca se do sexo. Que interessa. Quando se quer é fácil. Companheirismo, como camaradas de combate. E depois os frémitos. As revoltas da Susana com a Clara, uma falsa. Um rufar de tambor. Seguido de laranjas e de desprendimento, pois o apego mata, e vai mais um chuto. Les bourgeois... não preciso repetir. Para que é preciso amor quando há fervor. Nem se percebe bem a diferença. Quero-te comer, está tudo dito. Afonso deixa-se extasiar com a palavra salva-me. Tira-me daqui. Leva-me contigo. O instinto de fazer ninho ao deus dará. Para esplendor da mãe natureza. Esplendor na relva. Se bem percebem. Tudo muito rápido. Como se tivessem sido atirados para dentro duma caixa contendo simultaneamente todos os êxtases e todas as contenções. Ainda falam do cinema. Bah, o cinema. Esse remédio dado em pequenas doses de 24 imagens por segundo, durante duas horas. E isso são os filmes bons. Os maus, placebo. Mas nem sequer é mau, quando se atira para a veia até a seringa dá tusa. Uff, só de imaginar. Imaginem, disse, uma música dos anos 80, ou dos anos 90, ou do fim dos anos 60. Ainda o Afonso não tinha nascido, muito menos a Susana. Mas que interessa. O importante é a pele. Tocar o corpo perfeito, liso e sedoso, antes que encarquilhe. E esse é imortal. Disso são feitos os rituais. Cada volta uma perspetiva. Esplendor na relva, se ainda não vos esquecestes. Só o galo tem sangue na veia, disse. Coisa mais redutora. Desculpo-me de então estar com a barriga cheia. O que interessa é o mar. De que serve o sangue da veia do galo se não desaguar no arrozal, ser aspergido de vinagre. Mais um pouco, perguntam. Há quem goste de mais vinagre. Para mim está bem assim. A conta certa, nem mais nem menos. Ah, Afonso, como olhas para mim. Quanta reprovação há na adolescência. A conta certa. Les bourgeois c’est comme les cochons. O que é isso da conta certa. Será que é preciso repetir vezes sem conta, les bourgeois c’est comme les cochons, comme les cochons. Parece que já esqueceste quando visitavas a Susana junto ao rio. De que serve o sangue na veia se não desaguar no oceano.

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