sábado, 1 de julho de 2017

O que os olhos não veem – Amália

Ter duas mulheres é sinal de hombridade, mais é devoção. Senão vejamos o culto Mariano e a sua obsessão com a castidade. Mas deixemo-nos de abstrações. Amália tem os seios volumosos, o que não é de somenos importância, e não pelas razões que podereis prontamente ponderar. A boca a saber a papéis, diz-se. Eu não sei, mas se não foi assim que Romeu acordou pela manhã, então um qualquer outro incomum gosto o terá despertado. Áspero, surpreendido primeiro, envergonhado depois, arrependido então, justificado finalmente. Não pela boca, pois tudo terá ocorrido na solidão do leito, à semi-luz que não deixa adivinhar a hora do dia, mas pelo pensamento que aproveita estes vazios de conjuntura para se desenfrear em relações tão lógicas como absurdas. Contudo, assim não foi com Romeu. A justificação saiu bem equilibrada, e capaz de ser repetida pela língua a Catarina, que já teve de sair a esta hora. Já a decisão que tomou de seguida foi irrefletida e, se for surpreendida, terá fraca justificação. Mas o que os olhos não veem o coração não sente e por isso resolveu ligar a Amália para a convidar para jantar. Falar com um colega, para perceber o porquê de terem cancelado a novela, disse a Catarina. Vontade de voltar a vê-la, disse a Amália. Obter a compreensão de Amália, desejou para si. Amália ficou surpreendida. Tinham decidido que seria melhor deixarem de se ver por algum tempo. Tinham é uma força de expressão. Foi Romeu que decidiu ser o melhor. E Amália não é mulher para colocar pressão num homem. É uma mulher de recursos. A surpresa foi o tempo que passou desde que Romeu teve esse longo e cauteloso monólogo, em que lhe explicou o porque de se separem. Um emaranhado raiado por flores oferecidas à sua beleza, à sua paciência e, finalmente, à sua compreensão. Algumas semanas apenas e estão de novo sentados frente a frente. Uma pequena sala de restaurante, daqueles onde para se entrar é necessário descer alguns degraus. É Romeu que fala. Gesticula mais do que habitualmente. Amália ouve atentamente. A luta de espadachins, repete Romeu pela terceira vez, que problema ouve com a luta de espadachins, insiste. Subentendidos? Mas com o Tavares a querer o meu lugar qualquer coisa que filmasse seria vítima de um subentendido. Sim, já te falei do Tavares, o sobrinho do Dr. Osório, filho de uma irmã casada com o Tavares, o da banca. Impingiu-mo como assistente de realização. Eu devia ter desconfiado. Começou a meter o bedelho na história. Começou a dizer, Romeu precisamos de mais ação. O duelo foi por sugestão dele. Depois soube que andou a dizer que era irracional, que não fazia sentido, que era mais desenhos animados do que novela. Isto sei porque me o disseram. Que ele não é menino para isso. Soube que até afirmou que eu não tinha solução para o crime do Capitão Simões. Que a história andava aos empurrões. Agora compreendo as perguntas que me fazia. Eu respondia-lhe, não tenha pressa. Mas ele, pelas costas, insistia que faltava ação. A civilidade mantém Amália atenta, mas nos seios percebe-se um indisfarçável enfado.

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