terça-feira, 13 de junho de 2017

The Weeping Song – Zé

Se o que inicialmente o paralisou foi a surpresa de sentir a água pastosa a escorrer por entre as pernas, agora também o incomoda o cheiro. Quando já se julgava em segurança, ter deixado o Ernesto para trás, recuperado a cabeça da descarga de pensamentos. Quando finalmente voltava a sentir as pernas no chão, a barriga prega-lhe esta partida. Uma borrasca sem aviso que o atira por uma porta aberta para um esconso vão de escadas de madeira castanha, entre o amarelado e o desmaiado, carcomida por gerações de larvas, famílias inteiras, que roem a infindável herança, não só a escada, mas o prédio todo, onde cada qual parte à aventura, traçando sulcos, rásrás, rásrás. Mas, àquela hora, o que se ouve é uma criança. Chora no andar acima, enquanto um cheiro almiscarado lhe entra pelas narinas. Uma mistura de bicho e madeira, em partes que não consegue discernir. Destes segredos são feitos os perfumes. Pungentes, como as tempestades que ensopam até aos ossos. Instalam-se e desencadeiam um rumor que rompe nas extremidades. A criança não se cala. Já chega, diz uma voz de homem, quando é que o puto para. Estou farta, responde uma mulher. Uma porta bate com força. O prédio estremece. Deve ser isso que explica as pequenas perturbações encontradas nos sulcos. Bichos cegos não são dados a sobressaltos. Talvez não tenham assim uma vida tão sossegada. Tentam, mas o mundo não é só feito de boas intenções. Não é só o prédio, são as pessoas que o fizeram, que acham que também têm direito. Ou, pensáveis, bichos que o prédio tinha sido feito para vós? Para a vossa delícia? Afonso faz tenção de se ir embora, mas sente as pernas paralisadas por uma cola peganhosa. Delícias. Larvas transparentes, sem vitamina D, assomam cá fora apenas pela calada da noite. E mesmo assim muito a medo. Quase por engano. Uma ida fugidia a uma sessão de esclarecimento. Apanhados à porta. Trazidos para dentro. Passei por aqui, mas já estou de saída. A vida não é só delícias, diz o conferencista. Usa uma qualquer analogia. Forte, como uma boa analogia. Inútil, como uma boa analogia. Analogias são como as cerejas, pensa Afonso. Cada uma tão convincente que nos faz esquecer a anterior. Esta é que é essa. Delícias. Afinal estas minúsculas lagartas também têm os seus alvoroços. Espasmos. Pasmo, pai, neste esconso de escada. Cheguei aqui num transe, não consigo recordar bem porquê. Tremem-me os dedos. Doem-me os ossos. Suores. Vai passar. Daqui a pouco já estou em casa. Só mais um pouco. É como se já tivesse aí. Não te preocupes. Já percebi. Delícias. O choro redobra de intensidade. A porta abre-se e o peso de um corpo pesado solta uma chuva de pó sobre Afonso. Foda-se, cheira a merda, anuncia a voz do homem sobre a sua cabeça, enquanto dedilha os degraus, a um a um, fechando a porta do prédio com estrondo. Passos precipitados trazem a mulher à entrada do apartamento. Com uma praga que dilata o edifício, atira, não penses que voltas, cabrão. Bate a porta com força para se proteger da reverberação da sua imprecação.

sábado, 3 de junho de 2017

Poor Little Alfie – Amália, Madalena e Sílvia

Mais do que a cara mergulhada no vomitado, onde os restos de uma encenação de almoço navegam à vista num banho de gin que foi fazer a apneia ao estômago, o que realmente incomoda é o cheiro. Um cheiro acre, que recorda a existência das entranhas e, finalmente, de um ser vivo formado à volta do tubo digestivo. Como se o aparelho respiratório fosse a consciência, e um esbirro invejoso, do outro, o único que atravessa o corpo de lés a lés. Por isso mete duas vezes dó Romeu no chão. Mete dó porque tolhe ver um homem emborcado na manifestação externa das suas vísceras. Dó, porque não consegue levantar o rosto, entontecido que se encontra pelos vapores que não retornou. Catarina ainda o tenta erguer, mas Romeu faz-se pesado e começa a gatinhar combalido, numa passada cega de animal possante. Bamboleia o corpo com o nariz roçando o chão. Pelos lábios semiabertos passa ar em ambos os sentidos, trazendo dos pulmões o bafo que vai soltando num rasto que marca o caminho. Catarina passa-lhe uma toalha molhada pela cara. Romeu interrompe a caminhada, surpreendido. Os lábios alargam e sente por dentro o ardor da água que apaga o fogo. Começa a sugar levemente a toalha, fazendo com que pequenos jatos de líquido passem por entre os dentes, apaziguando a língua. Levanta uns olhos vagos e vê Catarina, desfocada, balançando-se de um lado para o outro. Faz um esforço para conciliar a vista com o cérebro, e vê a cabeça de Catarina desdobrar-se em duas, agarrada pelo tronco. A visão provoca-lhe náuseas e fecha os olhos. Na escuridão, o cérebro dá um mortal, desequilibrando Romeu que aterra a cabeça no chão. Duas mãos seguram-no pelos ombros e sustêm o que ainda pudesse haver de queda. Aproveita então para rodar o pescoço, repousando sobre a face direita. O solavanco deixou-lhe os braços ao longo do corpo. Mas as pernas não se dão por rendidas e, mais por descontrolo que por desobediência, insistem em avançar. A força do desgoverno desencadeia um ligeiro arrasto que, se consegue deslocar as mãos alguns milímetros lá atrás, cá à frente apenas serve para repuxar o lábio inferior, expondo a gengiva com despudor. Encostas de carne luzidia sob um castelo de esmalte que se abre para deixar passar uma corrente de ar que resvala pelo carreiro de baba até ao chão. Fica assim, prostrado, como um animal a repousar sobre o pasto. Quando as pontas dos dedos de Catarina lhe tocam a face, reabre o olho esquerdo e procura fixar um mundo sem profundidade onde três rostos sorridentes o observam. Lado a lado, trocam impressões sem deixarem de o fitar. Olhos dilatados, em simpatia com os lábios que descobrem dentes alinhados. Lábios que ondulam com doçura, nunca encobrindo os dentes, por onde as línguas enunciam danças do ventre. Bailam à vez, e em sintonia, reafirmando a mesma frase musical. As cabeças acenam, de baixo para cima, reproduzindo sins. Vão-lhe assim chegando melodiosas ondas sonoras que procura captar com ligeiros movimentos da cabeça. O olho de Romeu dilata quando reconhece Amália, Madalena e Sílvia.