sábado, 13 de maio de 2017

Hollow Hills – Ernesto

Um Deus triste com o sofrimento do mundo. Foi quando finalmente refreou o passo que Afonso se questionou se Ernesto estaria mesmo morto. Invadiu-o um sentimento de culpa. Se calhar estava vivo. Precipitou-se quando o viu revirar os olhos com a agulha ainda na veia. Eh pá, Ernesto, deixa-te de merdas. Disse-lhe duas vezes, abanando-o com cautela. Mas ainda assim, a seringa a balançar, decaindo do antebraço para o chão. O gajo já tinha ido, nada mais havia a fazer ali, melhor pôr-se na alheta. Era a primeira vez que estava no apartamento. Parece que era de um primo do Ernesto, que estava fora. Surripiou a chave à mãe, fez uma cópia, e agora era um paraíso. Ideal para dar um chuto na boa, dizia. Sem stresses. Não tinha culpa de nada, certificou-se. Não conhecia o local. Sabe-se lá quem podia por lá aparecer. O Ernesto dava-se com gajos bué de esquisitos. Pessoal da pesada. Não andavam só a curtir, tinham responsabilidades, e na merda deste negócio não se brinca, meu. Na ausência do direito, um bom nome é tudo. Perdes o nome e tás fodido. Fazem de ti gato-sapato. Pagas uma meia, dão-te uma quarta. E depois riem. Puta de vida. Sempre a lutar entre o cavalo e a dignidade. Cada um a puxar para seu lado. A vida é um paradoxo. O cavalo exige dignidade para ser montado e depois passa o tempo a tentar atirar-te ao chão. Dizem que há gajos que se aguentam. Andam anos nisto. Tratam o bicho por tu. Em todo o lado há tipos regrados. Calculistas. Cavalgam e não se entusiasmam. Parece que o Ernesto não é um deles. Se é que já foi. Senão, sabe-se lá. A filha da puta desta vida dá voltas. Partes numa viagem e nunca sabes como regressas. Até podes regressar cínico, dizem. É capaz de ser verdade, mas o pior é ficar-se com a cabeça atrofiada. Nos últimos tempos o Ernesto andava mais para o contemplativo. Devia ser de ter deixado de meter na rua. Estas merdas contam. Condições são condições. Não venham com tretas. Com um pouco de conforto até a miséria dá frutos. Sim, contemplativo. Podes crer. Passava horas a olhar para as estrelas. Somos só um ponto no universo, dizia, e metia para dentro. Não sei por onde andaria, pois quando regressava voltava a olhar para as estrelas. Será que tirou por lá alguma selfie? Somos só um ponto do universo. Repetia. Coitado do Ernesto. Foi nesta fase meditativa que começou a usar o chapéu de abas. Ficava-lhe bem. O corcovado do alto fazia pendant com as maçãs do rosto chupado. Não, o gajo tinha pinta. Tinha vaidade no chapéu. Somos assim. Afeiçoamo-nos a estas pequenas merdas. É isso que nos traz agarrados à vida. Um mundo oco este. Se não for isso. Se não forem as estrelas. Estamos cá para quê? Comer, beber e cagar. Não, tem que haver mais alguma coisa. O chapéu do Ernesto. Devia-lho ter posto antes de sair. Ele havia de ter gostado de ser encontrado assim. Com a seringa e tudo. Mas foi tudo a correr. Não se faz nada com calma nesta vida. Não há tempo para nada. Ao menos ele teve uma vida cheia. Antes isto que morrer velho e passar uma vida a vegetar. O gajo era tramado, a contemplar, apenas um ponto no universo.

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