domingo, 7 de maio de 2017

A Strange Day – Romeu

Quando o rosto de Romeu entrou por entre os seios de Catarina imaginei que iria ser tão grande e intensa como uma obra prima da literatura russa. Grandiosa por fora e por dentro. Na imensidão das descrições dos campos de batalha, na acutilância dos detalhes da complexidade psicológica dos personagens. Mas não é que, nesse preciso momento, me sobreveio um tremor que me acanhou a mão e me impediu de expor, como pretendia, o que tinha para narrar. Assustada, agarrei-me à esperança que seria uma convulsão à Dostoiévski. Daquelas que por vezes o atravessavam. Um ataque de génio. Fui, na realidade, tomada por um rufar repetitivo que se instalou em mim como um vírus. Peço-vos desculpa, porque cada palavra que se atreve é imediatamente amassada, escravizada por esta batida. A epopeia que tinha em mente ficou reduzida a muito pouco, um dia apenas. Um dia bem estranho. E mesmo assim, só o favor da literatura concede transformar num dia os escassos momentos que a cabeça embriagada de Romeu passou ali. Poderia exprimir tudo numa única palavra, contradição. Romeu de joelhos. Com os olhos abertos de um cego. Brancos e revirados para dentro. Envolto num mar com uma praia de pedras. Enjoado do doce navegar. Precipitado em queda livre pelas contrações do estômago. Falhando-lhe as pernas. Sem a gravidade do planeta terra. Encho-me de vergonha com a trama psicológica que me foi destinada. Que paga por tanto desejar. É assim a juventude feita a correr. Mais um pouco. Por favor, só mais um pouco, depois faço de mim uma mulher. Só mais esta canção. Uma contradição. Um atropelado numa passadeira que se atira para fora da zebra. O corpo ao ralenti, à deriva entre o céu e o chão. Batalhando. Os braços trespassando inimigos invisíveis. Cada golpe um homem ao chão. Uma oportunidade para o seguinte. Estranhos inimigos, que desejam a morte do companheiro para poderem ver chegada a sua vez. Irónicos inimigos, que num sorriso dizem, esbraceja Romeu, esbraceja. Um dia bem estranho. E o chão que nunca mais chega. Negando-lhe o descanso em paz. E os tambores que não se calam. Rufam, rufam. Parem, estou farto desta guerra, diz Romeu, enquanto involuntariamente carrega no replay. E, quando se sente finalmente a chegar ao chão, uma mudança na batida, mais longa, como uma ordem de recarregar, eleva-o em nova exaltação, esbracejando agora mais que nunca. Como um batalhão cego de cansaço, vendo no campo inimigo o lar doce lar. Doce miragem. Como correm. Como abrem e boca e gritam. Mãe, pai, voltei da guerra, são e salvo. Os braços como asas. Fora da passadeira. Abraçando a Catarina. E pobre de mim. Preparada que estava para as paisagens. A bateria sobre a colina. A névoa lá em baixo. Envolvendo as árvores do bosque. O bosque que regurgita homens. Cegos do que os espera. Envoltos na humidade onde lhes vai brotar o sangue. A metralha cuspida lá de cima. Caem atordoados. Épico, sonhei. Mas coube-me em destino este chão de cozinha.

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