sábado, 22 de abril de 2017

Zona de Conforto – Catarina

Envolvo a carraça bem encrustada sob o pelo do cão. Podem dizer mal dela. Apontar-lhe a acomodação. Mas qual é o bicho que quer deixar a sua zona de conforto? Andam agora por aí com essa conversa. Até parece que pretendem que se transformem em melgas e partam à aventura, a sugar por aqui e por ali. Não sabem que é assim que se apanham as doenças? O próprio Napoleão tinha mais respeito por uma corrente de ar que por um batalhão de cossacos. Um inimigo bem mais traiçoeiro, dizia, que de manhas percebia ele. Não deveis estranhar, por isso, que a carraça se aconchegue lá fundo, junto à raiz dos pelos, como um vinhedo costeiro protegido por um canavial. E depois é toda uma impossibilidade construída pelo hábito. Acomodou-se, criou rotinas, arredondou-se, passou a almoçar sempre no mesmo restaurante, às quintas, tripas à moda do Porto, por vezes, que uma vez não são vezes, ou melhor, quase sempre, a tarte de coco, hum, delícia, tome lá uma ginjinha para ajudar, bem bom. Devido a tanto divinal suco, tornou-se mais sangue que músculo. Malditos hábitos que nos fazem fracos. Soubesse e teria sido pirata toda a vida. Não passava agora por isto. Perder peso. Ganhar asas. Mas eu não abandono os meus. Por isso, ali vou, feita passarola, vela enfunada, bandeira desfraldada, a caveira com os ossinhos a fazer um laçarote. Ou pensáveis que a iria deixar ficar sozinha? Exposta. Não, comigo é até que a morte nos separe. Afeiçoei-me a ti minha carraça, meu pirata. Também os estúdios se tinham tornado a zona de conforto de Romeu. Mas, quando saiu não levava vontade de regressar, tanta era a revolta. Mantendo uma aparente compostura, quem dele se acercasse poderia sentir uma vibração resultante de um linguajar interior, indistinguível. Um zunzum, em que discorria razões, inconformado com a decisão de cancelar a novela. Uma enorme injustiça. As audiências estavam altas. É verdade que o tio bem o tinha avisado, naquele dia em que o apresentou ao Dr. Magalhães Osório. Há mais para além do Dr. Osório, disse-lhe, quando saíram. Ligou ao tio, agora já não há nada a fazer, assegurou-lhe, desculpa, mas eu próprio me devo manter afastado. O regresso a casa é feito aos ziguezagues. Já duas vezes se enganou no caminho e voltou atrás. Quando abre a porta, Catarina imediatamente se apercebe como vem. Lança-lhe um olhar interrogativo. Não lhe apetece falar. Vai à cozinha, recusa o copo de vinho e retira a garrafa do gin. Apenas se ouvem os ruídos da rua abafados pelas janelas de vidro duplo. Serve-se outra vez de gin. Catarina está expectante. Romeu tomba sobre os joelhos e senta-se no chão, encostando-se às pernas da mesa. Catarina junta-se a ele. Romeu bebe o resto deste segundo gin de um trago, enquanto estica o braço para trazer a garrafa. Serve-se de novo. Então? Pergunta-lhe Catarina. Cancelaram a novela. Mas as audiências não estavam boas? Estavam. Então? Dizem que exagerei. Exageraste nada! Vais ver que é um mal-entendido e que tudo se resolve. Abraça-o. Romeu coloca a cabeça entre os seios de Catarina.

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