Não se consegue separar o som da luz. A sua intermitência mergulhada em fumo. Fumo que se agarra ao suor dos corpos, apanhado entre os encontrões. Sou testemunha da descontinuidade. Afonso viu Susana num clarão. Depois fez-se escuro de novo. Esperou até voltar a haver luz. Ela já lá não estava. Fechou os olhos antes de se fazer noite outra vez. Concentrou-se nas guitarras e numa voz que repete uma palavra mágica. Quando reabre os olhos está ao seu lado. O que fazes aqui? Vim com a minha irmã. Onde está ela? Foi à casa de banho fazer um caldinho. Ah. E tu? Eu não. Não? Não. Fez-se noite de novo de novo. Afonso fecha os olhos. Ondula o corpo. Reabre os olhos e Susana continua à frente dele. Séria. Diz-lhe, salva-me. De quê? Não sei. Preferia ter ficado em casa. São empurrados, ficando lado a lado. Na música repete-se again, and again. Onde já ouvi isto, pensa Afonso. Quem ficou em tua casa? Ninguém. Porque viestes? Tenho medo de ficar sozinha. Uma bateria bate em cadência de combate. É só disso que tens medo? Não. Uma luz atravessa os olhos de Susana. Grita-se um refrão qualquer em unanimidade. Costumas vir aqui? Às vezes. Às vezes. Às vezes. A resposta reverbera. Afonso faz tenção de ir embora. Susana não se move. Afonso fecha os olhos. Deixa que tremores lhe percorram os músculos. Entreabre os olhos para que alguma luz vá entrando. Solta o corpo ao compasso da música, deixando-se surpreender por cada novo acorde. Susana pergunta-lhe. E tu, costumas vir aqui? Às vezes. Queres uma cerveja. Sim. Serpenteia em direção ao bar. Quando regressa, a Susana não está. Deixa-se ficar. Pouco há no que acabastes de que presenciar, mas são disso feitos os feitiços. Se tivessem substância não seriam feitiços. Os feitiços, como os ardis, contêm um pedido de ajuda seguido de uma espera. No pedido exalta-se a matéria. Na espera forma-se o caráter. Como se forja uma espada, com fogo e água. Sei que levantais dúvidas. Dizeis, pobre rapariga, pobre rapaz. Quem os deixou lá ir. Dizeis isso porque nunca lá estivestes. Ignorais o êxtase de um cão que se deita no chão, de barriga para o ar, com uns olhos suplicantes ao fundo de um focinho molhado. Ou o ardor de seguir um desconhecido pelas intrincadas ruelas duma cidade marroquina para nos levar a um vago lugar prometido. Tudo coisas que o bom senso não aconselharia. Mas voltemos ao feitiço. Imaginemos um feitiço cheio de bom senso. Como uma aventura paga. Empolgada no cartaz. Inócua e assética na realidade. Como uma prostituta legalizada. Tudo by the book. Sem o mais ligeiro ameaço de ardor. Sem um assomo de súplica. Que feitiço é esse? Com que fogueiras podereis intimidar tais feiticeiras? As do IVA, talvez. Achais mesmo que o que atormenta a alma de Afonso é o IVA. Que quando a sua mão aperta a garrafa molhada da cerveja o que sente escorrer por entre os dedos é a percentagem do imposto. Que por isso passa horas sem fazer nada. Deixando-se perturbar por todas as músicas que vai ouvindo. Achais mesmo? E da Susana? Uma miúda ainda atrapalhada com o fogo. Uma aprendiza de feiticeira.
In 25 de abril sempre (2017)
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