domingo, 9 de abril de 2017

Mercado – Romeu

Ficastes pendentes do homicídio do Capitão Simões? Tenho então más notícias para vós. L’Ancien Regime não terá continuação, fica-se por uma única temporada. E não é por causa das audiências, essas até são razoáveis. Romeu esmerou-se a colocar todos ingredientes necessários. Nem sequer necessito de vos dizer quais, uma vez que chegastes até aqui, semana após semana, vítimas das ênfases, insinuações, ausências e prolongamentos. Por conseguinte, quando soube da notícia, que não tiveram a gentileza de lhe comunicar pessoalmente, Romeu sentiu-se injustiçado. Andava tão entusiasmado a conceber a novela, a acrescentar-lhe fios narrativos, a atar-lhe as pontas, criando uma rede sem princípio nem fim, feita para durar, fadada a apenas desaparecer por enjoo, por excesso, quando os espetadores já são dependentes, e não necessariamente poucos, mas doentes, e, como tal, quando a sua conclusão pode ser justificada como um ato de saúde pública. Nessa situação, até o realizador está de acordo, pois, o píncaro do sucesso de um ilusionista é desmontar o truque, mostrando a sua grandeza. A grandeza da criação e a grandeza da renúncia, juntas numa só. Quando finalmente ouviu da boca do Dr. Magalhães Osório, diretor de programas da estação de televisão, pois é, meu caro, as coisas nem sempre são como nós gostaríamos, Romeu apenas conseguiu balbuciar, mas, e as audiências? As audiências, ai as audiências, repetiu abanando a cabeça o Dr. Osório, com alguma incredulidade. Olhe, sabe o que eu acho? O Romeu entusiasmou-se. Mas deixe estar, é frequente, especialmente no princípio. Todos gostamos que gostem de nós, e depois as audiências sobem, e lá vamos repetindo o que resultou, aumentando-lhe a amplitude. Sabe, fica o realizador tão viciado como o seu público. Mas qual é o problema? Insistiu Romeu. Não são as audiências que atraem a publicidade, que dá lucro, que viabiliza a estação? Meu caro Romeu, nunca pensei, saiu-me um neoliberal. Bom eu, também o sou, mas você é do tipo ingénuo. Como é que pensa que funciona o mercado? Julga que funciona sozinho? O mercado tem que ser regulado, senão é o caos, e começa a tragar as pessoas. Romeu, mostra-se surpreendido. Ai Romeu, Romeu, um neoliberal ingénuo é pior que um comunista. Sei que foi o que apendeu na escola. Compreendo, uma boa educação faz-se com uma base teórica sólida. Mas tem que ser cimentada na prática. Quer dizer que não foi por causa audiências que cancelaram a próxima temporada? Interrompe Romeu. Olhar só para as audiências é muito redutor, caro Romeu, responde-lhe pedagogicamente o Dr. Osório. Mas eu coloquei tudo o que era necessário, justificou-se Romeu, como um bom aluno numa revisão de provas. Não nego que se esforçou, Romeu, mas exagerou, frisou o Dr. Magalhães Osório, está tudo de acordo com a teoria, feito como deve ser feito, não nego, até lhe dou os parabéns. Mas, vejo-me obrigado a repetir-lhe a pergunta, como pensa que funciona o mercado? E perante a expressão espantada de Romeu, explica-lhe. São as forças vivas da sociedade civil que fazem do mercado o mercado.

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