domingo, 2 de abril de 2017

in extremis –

Uns grunhidos? In extremis? Não é coisa bonita. Estávamos à espera de mais. Uma carta dedicada a uma causa não pode deixar que as suas últimas palavras sejam uns grunhidos. Se a Igreja se regozija com a conversão in extremis dos não crentes, uns grunhidos não poderão com certeza ser interpretados como uma conversão, um arrependimento no momento da partida, mas dão margem ao pequeno comentário. Pobre diabo, tanta conversa e lá foi como todos os outros. Se calhar pediu para ser recebido do lado de lá. Lá está. Se calhar. Venho por isso em defesa da carta republicana. Não, não houve arrepiar de princípios. Achais porventura que uma carta fadada para ser engolida pela boca negra de um diabo vermelho teme a morte, ou parte na esperança de um além. Ah, dizeis vós, pois é, mas entram com a certeza de serem entregues ao Destinatário. Tendes aí um ponto, concedo, mas isso é porque usais as imagens deste mundo para inventar um outro. Dir-vos-ei mais. Apenas podeis empregar esse argumento porque é o progresso que garante a entrega da mensagem. É a vitória da civilização, da máquina racional, que com os seus bem oleados mecanismos assegura que chegam ao destino. Nessa idade média, de que éreis senhores, poucas missivas escapavam à intempérie, à desventura, ao acaso. E o que dizíeis então? Vede como as mensagens do homem para o homem são nada. E tínheis então um ponto. O que perfaz dois pontos. Mas não vos parece que foram somados com alguma batota? Dais agora uma volta sobre as vossas razões, revoltados, e atirais que um homem sem alma é como um animal. Por isso grunhiu. Não, não foi falta de alma, foi falta de ar. Pois foi, vireis vós de volta, mas se tivesse alma, teria a vontade que não cala, não precisaria de ar para falar. Mas que falar é esse sem ar? Um milagre? Bom, contra milagres já nada posso. Desdenhais dos milagres, dizeis a rir, esperai o momento da morte e depois falamos. Acho que voltámos ao princípio. Um elo, como o que enlaça a carta republicana no seu leito. Coitada, perdeu a cor rósea, está lívida, presa na mão do Sr. Capitão Simões, que jaz no chão. Tombado da cadeira, tem em volta do pescoço o garrote com que foi estrangulado. A polícia diz que deve ter sido alguém em que ele tivesse confiança, para se ter colocado por detrás do capitão antes de este dar o alarme. Não costumava estar no gabinete aquela hora. Era um homem de hábitos. Alguma situação excecional o deve ter levado a romper a rotina. Foi um encontro combinado, com certeza. Uma amante? Para o garrote é necessário um pulso forte, determinado a não parar. Um golpe certeiro. O corpo foi deixado no local onde ficou, paralisado com a falta de ar. Não há sinais luta ou de ter sido arrastado. Também não se deu pela falta de nada, gavetas e armários não têm aspeto de terem sido mexidos. Qual seria o motivo do encontro? Um assunto pessoal? O que ocorreu in extremis? Terá percebido a razão do seu triste destino? O que terá dito? Com a carta do Dr. José Galvão na mão, esse ateu confesso.

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