Quando abre a mão revela uma chama bem no meio da palma, que vai do azul junto à pele ao laranja das extremidades. Sou como a chama que arde no coração de Cristo, em antigas gravuras que ornamentavam casas modestas. Um Cristo belo. Sim, o fogo fascina, eu sei. As chamas têm chamamento. Atração que captura os olhos. Chama que desperta uma loucura que se quer calada, como um amor secreto, escondido dos comentários comezinhos dos outros. Por isso vivo no segredo guardado pelo punho fechado de Afonso. Sou uma pontada de calor bem no centro, onde as linhas se cruzam. Dormente, persevero-me na ânsia do oxigénio que me dá forma. Afonso sente-me ali como um incómodo, mas mantém a mão cerrada. Sou a presença constante que o acompanha ao longo do dia. Por isso é ligeiro. Sorri. Não se atormenta perante as dificuldades pois sabe que mais tarde soltará a mão e abrirá os olhos à minha chama. Talvez por isso, por ter a felicidade periclitante dos que acreditam, o pai não procure mais. Dirão que é desleixo para um psiquiatra, mas na azáfama de concertar as almas dos outros, com os próximos, tal como consigo próprio, vive numa espécie de alheamento. O enfado de quem por cautela não traz trabalho para casa. Já da mãe não poderei dizer o mesmo. As mulheres não se conseguem desligar dos seus rebentos. Mas prefere não saber. Engendra uma multitude de pequenas causas que expliquem o que suspeita. Causas sociais. Objetivas. Alicerçadas num materialismo dialético que coloca tudo numa rede lógica que traga os novos factos e os digere em velhas associações. Mas Joaninha está enganada. Como vos disse a minha origem é de uma ordem religiosa, que não se explica. Não que não se tenha tentado. A religião é o ópio do povo. Ah, ah, ah. Não posso deixar de crepitar de riso. O que seria do Afonso sem mim? Como seriam os seus dias se não tivesse a garantia da celebração da chama. De se ajoelhar perante a minha redenção. Pobre Joaninha, sempre tão perspicaz e tão cega para o essencial. Deveis estar a pensar que sou como a canção na cabeça do Afonso. Sim é verdade, não sou é tão passageira. A canção é a fuga do Afonso, eu sou o Afonso. Dou-lhe o desprendimento que faz a camaradagem. Um afastamento do material consubstanciado numa desambição mãe da partilha. Quem não é generoso depois de um farto almoço? Ou, após soltar a alma numa adoração? Tudo isso eu dou a Afonso e há, contudo, nele um sofrimento de ter de fechar a mão. De se sentir obrigado a esconder a chama. Não, não sou eu que, como uma amante possessiva, o atormento com a necessidade de declarar publicamente o seu amor. Não sou vítima dessa insegurança. Não há no fogo condições para a consciência. O sofrimento do Afonso advém da minha força. A dúvida atormenta qualquer relação e Afonso teme que possa abrir a mão e já lá não encontrar a chama. Por isso a dor na palma da mão. A forma como ele não a consegue separar de mim. A inquietação de não perceber claramente onde termina a dor e começa a paixão. Como se de uma crise de fé se tratasse.
In 25 de abril sempre (2017)
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