sábado, 4 de março de 2017

Valentia – carta do Dr. José Galvão

Não, as palavras que porventura acabastes de ler não são o último produto de um cérebro no seu momento de estertor, não. Não são a enunciação das encruzilhadas que um moribundo não percorreu, como se a última perceção da vida tivesse a forma de uma árvore invertida, não. Pensastes, mas não são. Ou julgáveis que uma guerra por entreposta pessoa pode ser mais do que um entretém. O que esperáveis de uma confrontação de destinatários? Acháveis que o trespassar do Capitão Simões era um ponto final e poderíamos avançar já para o Perdidos e Achados, que como vos disse espera à porta pela sua vez. Pois é, menosprezais o malvado do Sr. Stern, que insiste em nos atormentar, enquanto não parte ele também. E, ironia das ironias, comentava-se que o cérebro do Sr. Capitão Simões já não estava a funcionar há alguém tempo. Que ele já era só olhos. E que quando a Hilário Mendes atravessou o O de Capitão, sim o O de Capitão, não o O de Simões, nem sequer o O de Armando, ós estes bem menos letais, atingiu um órgão vital entrando pelo cérebro adentro. Mas como vos digo a causa da morte não foi cerebral, foi visual. E se essa foi a causa, sobre a consequência posso-vos dizer que quando chegou ao chão, solta da mão do Capitão Simões, a carta do Dr. Galvão levava o Exmo. Sr. Capitão Armando Simões como um penduricalho, um muito desequilibrado bigode chinês, agarrado ao sobrescrito pelo O fatal. Peço-vos, pois, que mantenhais esta imagem para o resto da contenda. E se ela terminará na meia folha que resta, nada vos posso prometer, dado que já várias vezes o afirmei e agora percebo que o escriba é o mais passivo dos seres. Só olhos, como o ido Capitão Simões. Imaginai então a carta a aproximar-se do chão, o ões jazendo já no soalhado encerado do escritório, quando num ato de valentia, fazendo das tripas coração, se retira ao humilhante destino, evita com maestria o corpo em queda do Capitão Simões, tudo isto sob a fortíssima vibração resultante da perturbação aerodinâmica provocada pelo bigode chinês, e se coloca frente a frente com a carta anónima. Esta, que tinha sido industriada a se manter calada, não se conteve perante a visão de um sobrescrito com o destinatário descaído e disse com um riso escarninho, parece o mancha branca. Aqui conto apenas o que se passou, não sei a origem da referência, se pertencerá a algum imaginário pessoal, se possuirá alguma relação com o mancha negra, um personagem malvado de banda desenhada, mas que tocou fundo na carta republicana tocou, de tal forma que puxou das suas origens pré-burguesas e gritou bem alto, o meu pai é um homem do povo, simples mas honrado, podeis violar a correspondência, gostar de emporcalhar-vos com a observação das entranhas, mas sabei que ao pé dele não passais de seres viscosos. Bom, meus prezados leitores, não sei o que estais a pensar, mas eu, que procuro ser o mais imparcial relator, não pude deixar de murmurar um, à valente. E digo-vos que a carta anónima não ficou indiferente, começando a levantar os olhos, mas refreou-se, a tempo de evitar perder de novo a compostura, e fez-se sonsa.

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