sábado, 11 de março de 2017

Técnicas – do Duelo

O que agora vos conto tereis vós que ler de olhos fechados. Sim, de olhos fechados. Imaginai que vos deslocais a um outro mundo. Um mundo onde cresceu uma civilização alienígena. Achais que é por terdes os olhos abertos que percebereis coisa alguma? Qual quê? Fechai os olhos e deixai-vos tragar pelos seres que o habitem. Então, se tiverdes sorte, se fordes engolidos da forma certa, talvez possais ter um primeiro vislumbre das leis que o governam. É assim que deveis fazer para ler a descrição do duelo. Mas direis que esta narrativa já se alonga, e que a seguis sem pestanejar. Pois é, mas isso foi porque procurei neste mundo o que mais se assemelhasse ao que pretendia descrever, e quando, por estranho e nunca visto, me surgia algo sem correspondência visível, ou invisível, logo me agarrei a qualquer coisa, pois quando nada há tudo serve. Sim, sei que achastes muita graça ao empernar e à luta de espadas destinatárias. Que vos foi fácil fazer associações, sorrir com malícia. Enfim, perceber. Mas isso foi porque vos falei na linguagem do mundo em que já fostes digeridos várias vezes. Agora acabou. Sinto em mim a rutura da veracidade factual, e, o que temos à nossa frente é uma luta de cartas. Onde já se viu tal coisa? Fechai então os olhos e lede com atenção. As cartas confrontam-se frente a frente e parece-me a mim que evitam tocar-se. Medem-se, enquanto se deslocam em círculo. O som constante e agudo que ouvis é produzido pela vibração dos cantos. É por isso que não se tocam. Estão muito próximas, mas à distância dos milímetros que a dobra dos cantos permite. Sentis também pequenos estalidos, que ocasionalmente entremeiam a vibração? Pois, acontecem sempre que as aguçadas pontas dos cantos se encontram. Nesses momentos têm, simultaneamente, um brusco movimento para trás. Esta é a técnica básica do combate. Esqueci de referir que em cada momento apenas um dos cantos está ativo. Não sei se por motivos congénitos, ou se já fará parte de um princípio que seguem com disciplina. As figuras que desenham acontecem pela alteração do canto vibrante e pelas rotações rápidas que permitem trocar de canto quando este começa a ficar cansado. Apercebo-me que esta manobra é antecedida pela perda de fulgor dos estalidos. Uma outra técnica consiste num toque forte, e seco, dado com o selo. Como podereis imaginar, só pode acontecer quando a vibração está a ocorrer no canto oposto àquele onde foi colocado o cavalinho com a corneta. Sou levado a supor que este será o golpe mais fatal, pois vão alternando o canto que vibra, do lado do selo e dos restantes, em manobras de defesa e ataque. É nisto que estão as nossas duas cartas de um modo um pouco entediante. Podeis por isso continuar de olhos fechados, dado que este me parece ser como um daqueles desportos que apenas pode ser apreciado por conhecedores. Eis que senão quando, num rápido movimento a carta republicana aplica um selo na anónima. Esta abre bem os olhos de dupla surpresa. A do golpe, que parece provocar dor, e a de verificar, pelo valor do selo, que a republicana foi enviada por correio azul.

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