domingo, 26 de março de 2017

Papillon – do Bigode

Pois é, quando parecia não ter fim, eis que tudo se precipita. Não, não foi o corte no canto superior da folha cujo ângulo até lhe deu um ar marialva, tivesse ela um palito entre dentes. Foi o bigode chinês. Não tinha já dito, antes caísse. Pois é, mas não caiu. São os apegos. E pasmai, nem sequer foi obra da carta anónima. Coitada. Muito ela ficou surpreendida. Quer porque tinha planeado retalhar a republicana pedaço a pedaço. Quer porque tinha planeado poupá-la. Vá-se lá saber o que vai na alma de uma anónima. Aconteceu tudo muito de repente. Não podemos isentar de culpas o bigode, mas também terá como desculpa que apenas foi o que é, e o que é o que é a mais não é obrigado. Um bigode passa uma vida a robustecer-se em balanços constantes, como resultado dos movimentos da carta. Uma verdadeira cordoaria ao ar livre. E depois fica como aqueles homens que, após passarem largas temporadas no ginásio, olham-se ao espelho e sentem bruscamente um enorme vazio. Então, pobre daquele coitado que se lhe atravessa à frente. Ainda mal o viu e já está em cima dele. Pumba, que tu és isto. Pumba, que tu és aquilo. E o azarado pode ser todo ouvidos, mas dificilmente compreende. Pois é. Aquilo que no duelo se tinha tornado diversão para a carta republicana, para o seu bigode foi o alimentar de uma ânsia, uma cega vontade de agarrar na anónima e a apertar tanto que viesse a desfalecer. E tomem nota na palavra cega. Um bigode pode ter fibra, mas falta-lhe retina. Se os derradeiros acontecimentos são da irresponsabilidade do bigode, um observador externo até pode atribuir todo o mérito à carta anónima, que se aventurou numa manobra arriscada. Desdenhou da fibra do bigode com o objetivo de provocar desconcentração e reduzir a precisão de movimentos da carta republicana. Para isso, aproveitou o breve desacerto resultante do corte no canto superior para deslocar o teatro das operações mais abaixo, na zona onde o bigode permanecia pespegado. Entrou então num jogo do gato e do rato, chamando o bigode a si e rapidamente se lhe esquivando. Estava, portanto, a parte cerebral da carta republicana a refazer-se do corte enquanto o bigode entrava em roda livre, como um desaçaimado cão treinado para matar. E não é que na sua cegueira se atira ao próprio dono?! A ponta comprida do bigode deu uma volta, entrelaçando-se com a ponta curta, enlaçando a carta republicana a meio, convencida que estava apertando a anónima, que olhava sarapantada. Nenhuma forma de morrer é bonita, mas esta tem requintes de malvadez. O aperto começa por selar, amarfalhando a parte atrevida da folha que ficou enredada na língua do envelope, soltando pequenos grunhidos. A asfixia provocada pelo nó fez engrandecer os lados, que aumentaram de volume e enrubesceram como dois pulmões à procura de ar. Ao centro, o laço dado pelo bigode aumenta de força, pois a falta de oxigénio destruiu as zonas de controlo e a fibra do bigode contrai irrefletidamente. No seu aperto máximo, quando de dentro só vinha silêncio, a carta tinha a forma de um papillon. Não é uma forma bonita de morrer.

Sem comentários:

Enviar um comentário