sábado, 25 de março de 2017

Mas Quando É Que Acaba – o Duelo

Mas Quando É Que Isto Acaba? Sim, faço questão de perguntar assim, começando cada palavra com maiúscula, com os faróis acessos para a condução da noite. E pergunto-o na preguiça de quem sabe que chegou a hora de terminar e se deixa estar. Por isso interrogo-me para atiçar o prazer e depois rir. Quando estamos envoltos em técnicas, táticas, golpes, e outros estratagemas, somos capazes de passar toda a noite nisso. Comprar uma cave, enchê-la de mesas, cada uma com a sua batalha, o seu jogo, em que se enfrentam papel e plástico, encharcados de significado, e regressar à cama pela madrugada, exaustos e satisfeitos, quando os vizinhos saem para o jogging. É assim que eu me encontro, mero espetador deste jogo de cartas. Quantas combinações há naqueles dois magros paralelepípedos. As três dimensões do espaço não são suficientes para explicar a subtileza de um arrastar de canto, nem a determinada intenção de uma leve pressão, ou as ligeiras oscilações de dentes dos selos. Talvez se deva ao facto da carta anónima ter suspeitado que a republicana não é quem diz ser. Que tenhamos não um, mas dois mascarilhas. Subitamente desconfortáveis, sem saberem o que fazer. Um mascarilha aplica um golpe à mascarilha ao que o outro mascarilha responde com uma técnica de mascarilha. Um duelo existencial e sem sentido. Um empate. Poderá conter todas as técnicas e táticas do mascarilha, mas emoção nenhuma, o grau zero do inesperado. Porque digo então que estas figuras são dignas de passarmos a noite a observá-las? Porque comprei uma cave onde todas as noites mergulho? Porque após o sobressalto do reconhecimento resolvem continuar a representar o seu papel, fingindo que estão a fingir. Se tendes dificuldade em perceber imaginai um baile de máscaras organizado por um grupo de amigos de longa data. São por isso agora mais afincadamente o que fingem ser. A republicana mais republicana e a anónima mais anónima. A primeira, repleta de ênfases libertadores, aplica táticas que expõem. Desafia a anónima a mostrar o que tem escrito. Para isso, alterna movimentos lentos com repentinos arranques, procurando soltar a língua do envelope. Mas a cola da anónima resiste ao destempero. Para cada movimento, finge que adere, flete, e depois faz-se plana. O que atiça a republicana, para quem um revés não é derrota. Recorre por isso ao ardil do agora vou-me embora, colocando-se, através de uma rápida viravolta, fora da visão do endereço. Infelizmente, o célere movimento é denunciado pelo bigode chinês, que a anónima ainda vê escapulir-se por baixo de si. Sorri, porque o sorriso é o escape da memória, e faz-se tonta, finge-se atónica. A republicana não sabe se há de acreditar, indecisão que a anónima aproveita para numa dupla pirueta à retaguarda raspar a outra num golpe de navalha. Da manobra há a lamentar a perda do canto superior da folha republicana, que no seu afã libertador, nem nos momentos de maior refrega procura a segurança do envelope, na ânsia de tudo observar, e poder dar instruções informadas. Pensais que este foi um golpe fatal? Qual quê, isto nunca mais acaba.

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