domingo, 5 de março de 2017

Introspeção – do Duelo

Neste momento em que os oponentes se encontram de novo face a face, a uma distância que permite um interregno narrativo da ação, para a análise da situação de cada um dos adversários, é a altura ideal para se fazer uma introspeção. Introspeção? Questionarão aqueles que, sentindo o cheiro a sangue, reduziram já ao mínimo todas as funções cerebrais acima do hipotálamo. Sim, introspeção. Estamos perante duas cartas possuidoras das suas razões, que não se atiraram ao despique por dá cá esta palha, e que, não obstante eivadas de convicção, ainda se vão interrogando. Ou julgáveis que eram dois pugilistas profissionais em cujos cérebros se repete a palavra mata à cadência de um tambor. Nesse caso sim, a introspeção seria uma atividade inútil, bastaria avaliar a quantidade de sangue vertido por cada um deles e os sinais de vacilação dos músculos. Mas como se pode então proceder à análise introspetiva de uma carta? Deveremos considerar as cartas em si? Ou os seus remetentes? Ou mesmo os seus patrocinadores, já que a anónima não tem remetente e do Dr. Galvão é de encomenda. Para as cartas em si, poderíamos procurar ler nas entrelinhas, mas não creio que estas tenham sofrido qualquer alteração em resultado das lesões do combate havido. Já a hipótese de avaliação dos remetentes não permite uma análise equilibrada e imparcial, dado que a anónima teria a vantagem de poder em qualquer momento ser uma coisa e o seu oposto. Resta-nos, portanto, a introspeção dos patrocinadores, mas também aí pouco se pode adiantar, uma vez que esta já foi feita em o Bispote. Com desalento vos digo, pobre Pinote, ter o seu destino na mão dos Deuses, esses magníficos seres emocionais, senhores da imprevisibilidade que é filha do capricho. Parei desalentado, confesso. Mas foi nesse momento desanimo que me ocorreu como o nosso cérebro nos prega partidas. Põe-se a pensar, a pensar. Ah, como ele gosta de pensar. Então, não vistes perante os vossos olhos as cartas a pelejar? Vistes porventura o Sr. Marquês na vozeirada republicana da carta do Dr. Galvão? Estaria por lá talvez a sua emoção, mas os ideais eram do Dr. Galvão, e os toques da arte de combate da carta ele própria. O mesmo se pode dizer da anónima, não se lhe pode negar a presença da Sra. Marquesa e do Hilário Mendes, mas é ela que ali está, forjada na luta. O meu cérebro abre-se maravilhado a este novo paradigma filosófico. Sim agora tudo faz sentido. Estou certo que poderei finalmente fazer uma análise introspetiva de cada um dos contendores. Do lado esquerdo temos a carta anónima, quase como chegou à refrega. Não se lhe nota uma dobra, quanto mais um rasgão. Já a carta do Dr. Galvão está semiaberta, com a folha um pouco de fora, revelando alguns dos seus argumentos, deixando-os ao livre comentário, senão à galhofa, da populaça. O estado do envelope também não é o melhor, devido às manobras aéreas a que foi sujeito, revela a possibilidade de alguma fragilidade estrutural. Mas o pior é o bigode chinês que provoca o riso de quem observa e enfraquece a sua força anímica. Antes caísse.

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