domingo, 12 de março de 2017

Ainda Outras Técnicas, Táticas, Golpes e Outros Estratagemas – do Duelo

Pois é, primeiro estranha-se e depois entranha-se. O selo dado pela carta republicana à anónima desencadeou em mim a doce sensação da compreensão dos princípios básicos do duelo de cartas. A isso não terá sido alheia a boa disposição da carta republicana que, após obrigar a anónima àquele faiscar de olhos, gritou com alegria, Vive La Repúblique, sim, assim mesmo, em francês, com um forte acento jacobino, que como sabemos é um bolchevismo permeável à participação aristocrática, e, maravilha das maravilhas, deu um pequeno pulo no ar, se é que a palavra pulo se pode aplicar a um movimento que não tem o seu início no chão, agitando simultaneamente ambos os cantos inferiores, o que descartou imediatamente a hipótese de a vibração singular de cantos ser uma caraterística congénita, pelo menos nos momentos de alegria. E agora sim, a alegria da republicana e a raiva da anónima deu origem a toda uma variedade de técnicas, táticas, golpes e outros estratagemas do duelo de cartas que, abri bem os olhos, é um gosto observar. Com a cabeça fora de si, e por favor imaginem como cabeça de uma carta a aba do envelope que impede o fácil acesso ao seu conteúdo, ou não seja dito dos desmiolados que têm a boca junto ao coração, a carta anónima aplica um golpe conhecido por gancho em cunha, em que mais em força do que em jeito, se atira perpendicularmente com todo o seu peso contra a republicana, procurando asfixiá-la contra uma parede ou outro objeto que ocasionalmente possa estar na trajetória. Esta não consegue conter o riso, não sei se ainda por via da alegria do selo ou pelo contacto do corpo quente da anónima, que, de inesperado, provoca involuntárias contrações musculares da folha dentro envelope. Não se encontrando numa situação completamente desconfortável a republicana usa uma tática conhecida, na gíria popular, por deixa-tetar quetás bem, mas que na linguagem militar, mais formal, é referida como retrocesso manhoso, em que se simula a intenção de avançar seguido de um retrocesso, com o objetivo de experimentar o adversário e convencê-lo que tudo lhe está a correr de feição. Apenas quando está quase em contacto com a parede é que a republicana resolve aplicar a técnica conhecida por chave mista, embora outros se lhe refiram como chave invertida, mas que resulta da evolução de uma técnica antiga, anterior ainda à luta de cartas, quando não havia correio e os povos deste lugar comunicavam por uma técnica conhecida por a passada. No que consiste então a chave mista? Bom, a republicana liberta-se do abraço asfixiante, deslocando a parte inferior para fora, num movimento que tem de ter tanto de rápido como de inesperado para poder passar pelos cantos inferiores sem eles começarem a vibrar, ficando as duas cartas agora encaixadas na parte superior, mas permitindo à carta republicana conduzir a seu belo prazer a anónima, desgastada que está da investida contra a parede, e obrigada agora a recuar, um pouco em contrapé, dada a ligeira torção a que se encontra sujeita. Esta folha está a chegar ao fim, pelo que me vejo obrigado a deixar o estratagema para a próxima.

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