domingo, 5 de fevereiro de 2017

Soco – Hilário e Pinote

Anda esta narrativa numa modorra, voltada para a caraterização psicológica dos personagens, mostrando nuances, roçando mesmo a mariquice dos diálogos interiores, mas eu não gosto nada disso. Para mim, onde não há ação não há nada. E não me venham com a importância de consciencializar os atos. Ponham-se a consciencializar, ponham-se, e depois digam que apanharam. Consciencialização é já com o outro no chão. Aí sim, é um regalo de diálogo interior. Vê-lo a retorcer-se restitui-nos a tranquilidade à respiração e um claro entendimento de como as coisas são. Depois olhamos à volta e sentimos como nos olham com respeito, e já está, é isto o mundo. Sei que há por aí muitos literatos que discordam de mim, mas a verdade é que evitam cruzar-se comigo. Não me preocupam. Enquanto estão às voltas com as suas matizes emocionais eu treino no saco. Até vos digo mais, embora não o confessem, até eles me admiram. Um vencedor é um vencedor, que raio. Tudo isto vem a propósito de uma polémica em que estive recentemente envolvido. Quem deu um soco em quem? Quem se acobardou? Diriam que isso pouco interessa. O Pinote já está dentro. Apanhou uma boa zurra. De grande que foi, que o Hilário até teve que o manter uns tempos incógnito no cárcere, a ver se ficava menos feio. Mas o respeito é muito bonito e houve quem dissesse que no monte foi o Pinote que malhou no Hilário. Que este até largou o cão por lhe faltar a firmeza na mão quando viu o Pinote correr para ele. Que já foi lá dentro que Pinote recebeu a visita do Mouco. Que dada a importância do preso, havia dois guardas à escuta, um de cada lado, enquanto o Mouco e o Pinote resolviam uma questão antiga. Dizem que o Pinote pouco falou, talvez por respeito pelo outro. Que às tantas até tiveram que agarrar no Mouco pois a argumentação sem resposta enlouquece qualquer um. Isto é o que dizem. Mas o importante não é isso, o importante é saber se o Hilário largou ou não o cão. Se virou costas, e começou a correr monte abaixo. Se o Pinote o agarrou e disse, vira-te. Se Pinote teve que o fazer mudar de opinião. Se nesse momento eu estive no punho de Pinote, ainda antes dos guardas finalmente o agarrarem. Bom, tenho que confessar que é uma grande responsabilidade. Não estou habituado a este tipo de problemas. No início até me pareceu que era simples. Mas depois de ver o Pinote amassado na cela fiquei um pouco confuso. Graças a Deus que o Hilário logo me mandou chamar. Tivemos uma conversa olhos nos olhos. Como sabem eu não sou muito de conversas, e gosto de tudo muito bem explicadinho. Mas está muito bem informado o Hilário. Disse-me que já tinha ouvido falar de mim. Boas referências, disse. Se continuasse assim teria futuro. Talvez até viesse a trabalhar para ele. Como verdadeiros colegas. Sem problemas de podermos ser vistos em camaradagem. De repente tudo fica claro na minha cabeça. O Hilário não é como esses intelectuais que me olham com repulsa. O Hilário larga o cão pois não quer empecilhos. Vira as costas ao Pinote para se concentrar, e enquanto o sente aproximar eu encho-lhe a mão.

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