segunda-feira, 13 de fevereiro de 2017

Poema – Marquesa

Quem nunca sonhou verter para a folha um pouco da sua alma. Quem nunca sonhou ser musa de poeta. Quem nunca passou um mau bocado. Quem nunca procurou na pena uma companheira. Quem nunca procurou o consolo num poema. Quem na noite escura não acendeu a luz sobre a folha branca. Estas são os princípios que regem a escola da poesia. Já lá vai tempo desde que a frequentei. Era novo e sonhava, como todos nós, vir a ser possuído por um génio, ficar para a posteridade. Somos compelidos, por isso, a percorrer mundo, quase sempre de noite. Noites de lua ou sem ela, como deve ser. Noites de tempestade, à procura do momento mágico em que um humano e a natureza se conciliam num ato singular. Foi por isso que ao ver a Sra. Marquesa acordada noite fora me fui colocar à sua mercê sobre a escrivaninha. Ali estive algum tempo, atarracada, à espera que notasse em mim. Andava agitada a Marquesa. Especialmente pela madrugada. Foi ainda antes da aurora que o rapaz regressou com a cesta cheia, de onde vem tão cedo que se não vislumbra a hora. Da janela do meu quarto presencio este enigma, sabe Deus porque estou acordada se nada deveria acontecer lá fora. Mas ao que os meus olhos veem não devo correr a cortina, pois se Ele me quis desperta é porque esta pode ser a minha sina. Quem dele se desobriga mais tarde ou mais cedo se afadiga, no remorso ou na pena por não ter sido digna. Podem de mim mal falar mas sou eu que decido onde coloco a pena, mesmo nesta carta anónima que escrevo com temor, mas sem problema. Mas porque sou eu assim, se calhar não devia, mas se de meu amo sou escrava a Deus sou obrigada. Coitada dessa outra mulher de criança ao peito, devo por ela fazer aquilo que não me diz respeito. Se Ele aqui me quer, não sou propriamente eu que o faço, mas o próprio Senhor isso me poisa no regaço. Escreve Deus por linhas tortas e eu dele sou a espada, que neste mundo faz justiça, quando poucos mais se importam. Mas se a meu senhor fujo foi porque ele não me quis agarrar, que muito pronta estava eu para lhe agradar. Que culpa tem esta outra mulher que não seja ter vindo ao mundo no lugar errado e num quarto sem fundo. Mas porque disso te preocupas, vede como eles bailam, ignoram o poderoso como cães sem laia. Serão gente, serão dele filhos, mas só na aflição recordam que têm alma dentro da carne calva. Anda ela pela casa como se não fosse minha, por isso me trespassa uma dor bem comezinha. Perdoai-me meu Deus por cumprir a vossa vontade, embora saiba que possa estar a pecar se fosse noutro lugar. A este palácio vim parar, não sei se por minha vontade, mas foi com certeza por razões de lealdade. Pelos quadros na parede suspeitei com aflição que não serei a primeira a que as coisas não correm de feição. Que posso meu amo fazer para quebrar esta sorte, se o bem só por si parece trazer mais dor do que a morte. Deixai, deixai as coisas ocorrer, pois o mundo é como a roda onde se coloca a criança que nasceu sem norte. Também eu me sinto para aqui perdida, ainda que na genealogia me seja fácil encontrar de quem sou a preferida.

Sem comentários:

Enviar um comentário