domingo, 19 de fevereiro de 2017

Duelo – de Morte

Prolonga-se esta narrativa para além do que tinha sido imaginada, urge, pois, pôr-lhe um final, a bem de outras que clamam à porta pela sua vez, gritando, quando é que tem fim esta novela. Sendo eu um ente fraco à solicitação alheia, principalmente quando carregada da necessidade, lanço-me à obra. Pensei, pensei, e conclui que o melhor é terminar com um duelo de morte. Mas já ouço as mesmas vozes que me impunham o fim rápido alegar que duelo está bem, mas anunciar já que é de morte retira-lhe a tensão dramática. Ah, lamentais-vos, mas afinal seguíeis com atenção! Pois, então, mais vos digo, vai morrer a alegria e a vida e vencer a ignomínia, e de resto, de forma bem traiçoeira. Enlouqueceu, dirão, deitar assim pela janela um tão árduo enredo. Descansai que ainda não é desta, pois sei bem que ao lerdes duelo de morte logo deitastes os olhos ao fim da página. Sim, morre o ideal republicano, vencido pela sua fraqueza, o gosto pela vida. Triste lição esta. Mas tantas estocadas tenho para relatar que devo com presteza começar. Quem se enfrenta? De um lado, está a carta do Dr. Galvão ao Capitão Simões, do outro, a carta anónima de que, suspeito, sabeis a origem e o destino. Qual o objetivo do duelo? A liberdade de Pinote. Quais as armas escolhidas? As mais naturais para os contendores: o envelope e a folha. Quais os golpes permitidos? Bom, aqui foi difícil chegar a um acordo. De início procurou-se que não houvesse golpes baixos, mas um parecer do Dr. Macedo, juiz na comarca, foi de opinião que entre cartas não há golpes baixos. Baseou o seu entendimento no facto de não fazer sentido dizer que uma carta deu uma joelhada a outra, pois as cartas não possuem joelhos, nem partes sensíveis onde aplicar tal golpe. Com certeza uma opinião formada mais na leitura de leis do que de correspondência. Mas assim foi decidido, e as duas cartas enfrentaram-se sabendo que dali apenas uma sairia viva. Começaram executando uma dança giratória, medindo-se, mantendo a distância. A carta republicana sentiu uma profunda repulsa ao ler o endereço da sua adversária, Exmo. Sr. Hilário Mendes, não conseguindo conter as palpitações provocadas pela revolta das palavras e frases contidas na sua folha. Logo aí a anónima partiu em vantagem. Devido à emoção, foi a carta republicana quem esboçou o primeiro ataque. Levantou a aba e deixou sair um pouco da folha para que a anónima ficasse ciente dos seus valores e princípios. Vã carga esta sobre uma anónima. Como resposta fez-se dengosa, pois sabia que a gentalha republicana é atreita aos prazeres da carne. Estes movimentos ondulatórios provocaram grande desconcerto. A folha, cheia de palavras, resistia, mas o envelope, concebido para a rua, não ficou de todo insensível. Tirando partido da vantagem, a carta anónima chega-se à republicana, e, desculpe-me o Dr. Macedo, a melhor palavra que encontro para descrever este golpe é, empernando. Ah, miséria, que ainda não é desta que consigo acabar. Esperem mais um pouco, que a vós já regresso com mais uma página da refrega.

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