sábado, 11 de fevereiro de 2017

Cântico – Deolinda

Sereis vós daqueles que se emocionam com um hino, que não resistem a um estádio em uníssono, a uma parada, a um desfile, a um mar de gente entoando palavras? Sabei, pois, que o hino é um meu irmão extraviado. Depois de uma cuidada educação musical, do dedilhar do piano na meninice, deixou-se encantar pelas certezas, ganhou músculo, perdeu o ouvido. A verdadeira emoção está nas incertezas que nos levam a procurar chaves, a estar atendo ao pormenor. Uma emoção que vai e vem. Que ataca de surpresa as mais inusitadas partes do corpo. Um vibrar aqui. Um baque ali. Depois, um enlevamento que não deixa nada de fora. E, uma vez lá em cima, o silêncio. É isso que o hino não percebe, o silêncio. Tão cheio de si, teme que não é. O que eu aprendi, e ele esqueceu, é que existo para me calar. Foi assim quando o Aires regressou com a cesta cheia. Eu percebi logo que o meu irmão subiu aquele monte, como gosta, ao ritmo do latido dos cães, aos gritos de estímulo dos homens, com a certeza que o caçador tem das delícias da presa. Imobilizei Deolinda com um grito, e podei ter a certeza que Aires nada ouviu. Parecia tão etéreo o Aires em frente a Deolinda, pairava com o seu ar, dando voltas sobre si mesmo, e da cesta nada caía. Depois atingi os músculos da face direita de Deolinda, pois no exaltar inicial das assimetrias está a arte da composição. É quando o Aires começa a abrir a boca para dizer não sei o quê que Deolinda sai comigo numa correria. De quanta coisa é feito o mundo. A poeira, que saúda o toque dos pés de Deolinda, atira-se ao ar com determinação. As pedras balançam-se à nossa frente, discutindo alternativas de caminho, a várias vozes. Vemos o casebre ao fundo, aumentando de intensidade, elevando-se enquanto nos aproximamos. Num último fôlego chegamos ao cimo. Deolinda entra por ali a dentro, deixando-me para trás, e estaca em frente ao recanto semicoberto, fixando a marca do corpo de Pinote sobre a laje. Silêncio. Se a ida foi presto, o regresso é lamentoso. Quão diverso é o mundo. Quão diferente a descida de Deolinda da de Pinote. Onde um arrancou a pedra do chão na raiva da corrida, o outro nela se enrola, levando-a em frente, como um empecilho das extremidades, tolhendo-as, arrastando-as. Como se prolonga este desaparecimento. De Pinote conta-se apenas a mancha no chão. Onde estás Pinote. Quem te levou. O Marquês perguntou por ti. O Dr. Galvão escreveu ao Capitão Simões. E nada. Nada. Onde estás Pinote. Onde estás. Quem te levou. Que eu ando neste desvario. Todos os dias à vila vou. Todo o dia repito o caminho. E nada. Nada. Onde estás Pinote. Onde estás. Quem te levou. Que a poeira já não é minha amiga. Nem as pedras me indicam o caminho. Onde estás Pinote. Onde estás. Quem te levou? Onde está o hino? Onde estás irmão?

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