sábado, 4 de fevereiro de 2017

Bispote – Marqueses

É magnífica a obra de Deus. Somos continuamente maravilhados pelas infinitas combinações fruto da sua criação, como um livro cheio de enigmas que possamos passar a vida a reler, encontrando sempre algo de novo. Mas, não há nada mais rico de diversidade do que a querela entre um homem e uma mulher. Ela pode durar uma vida inteira e nunca se esgota. Sinto-me por isso uma obra de Deus, já que é sobre mim que os Marqueses desenrolam um infindável rol de argumentações, pequenos ditos, observações en passant, que, todos juntos, dariam com certeza um livro extraordinário. Tentarei, contudo, resumi-la nesta página a que tenho direito, nesta obra que também se arvora em infindável. Deveis estar neste momento com elevadas expetativas acerca de mim. Estou habituado a isso. À minha visão as pessoas apressam-se. Sou um bispote detentor de um inconfundível acento inglês e estou em casa dos Marqueses há muitas gerações. Já era o favorito da Marquesa, a velha, e agora caí nas graças do atual Sr. Marquês, que era muito afeiçoado à Senhora sua mãe. Não sei se é por causa disso, mas sinto-me acarinhado. E de tal forma o sou, que a Sra. Marquesa, a nova, não consegue esconder os ciúmes. Pois é, quem rouba um filho a sua mãe nunca se redime da culpa, nem da punição. Sorride sempre que oiçais, a minha nora gosta muito de mim, ou, dou-me muito bem com a minha sogra. Sorride. Sou eu que recorda aos novos, aos que pretendem refrescar o património genético desta família, que bem podem tentar, mas a signa deste clã foi traçada há muitas gerações, por guerreiros encabelados em cima de cavalos, e nada há a fazer. Podem trazer nome ou fortuna, mas será só uma achega, um fingimento de renovação. Por isso, quando o Sr. Marquês me coloca em destaque, em cima da sua secretária, a Sra. Marquesa não se consegue conter e alvitra, ao menos pode colocar o bispote no chão. O Sr. Marquês, homem treinado nas artes da caça, e que sabe que bicho que não mexe é bicho que prevalece, diz, é-me mais conveniente para colocar a cinza do charuto. A Sra. Marquesa, a nova, não é mulher de guerras abertas, pelo que é que pela calada que se dirige ao escritório do Sr. Marquês. Deixai então dar-vos uma nota sobre estes momentos a sós, sem testemunhas, agora que a Sra. Marquesa, a velha, já cá não está para lhe poder confidenciar dos tratos de que sou vítima. A sua face perde a candura que a Sra. Marquesa, a nova, sabe tão bem cultivar. Pega-me pela asa, com repugnância, e leva-me a bambolear até ao chão, sem a dignidade a que me habituei com a Sra. Marquesa, a velha. Mas a memória de sua mãe continua bem presente em seu filho, pelo que assim que regressa ao prazer do seu charuto, o Sr. Marquês pega em mim com ambas as mãos e recoloca-me no lugar a que tenho direito. Nada tranquiliza mais para uma mãe que a satisfação do seu filho. É, contudo, sol de pouca dura pois a Sra. Marquesa, sabedora da estratégia do Sr. Marquês prepara-se para a nova investida e logo sugere, porque não oferece o bispote ao seu companheiro de charuto, o Dr. Galvão. Que desaforo, um republicano.

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